Terça-feira, 1 de Junho de 2010

OH! TERRA, OH! QUE LINDA TERRA

 

Digo a toda a gente que conheço, quando se proporciona, que a minha terra é linda, com a vaidade própria de quem lá nasceu e lá mantém as raízes familiares e afectos, que revivo agora assíduamente.

A idade tudo leva e tudo traz, diz-se, com a evolução das mentes na aprendizagem do que a vida e a idade nos ensina.

Somos moldados para a vida nas múltiplas facetas que adoptamos com as experiências e aprendizagens que absorvemos  nos primeiros anos de vida.

Vivi até aos doze anos no mundo fechado da minha aldeia absorvendo os hábitos instalados dos que me rodeavam. Parti então para Lisboa onde me fixei até hoje com a inocência dos da minha condição.

Quando revisitava a minha terra uma vez por ano  ficava sempre deslumbrado a rever as mesmas coisas de sempre, no seu estado primitivo e estacionário. Grupos de homens com a enxada às costas, grandes extensões de plantações de batata, milho e feijão semeados,  carros arrastados por burros, mulas ou bois, regas das hortas com águas retiradas aos poços com as gaivotas à força de braços, rebanhos a pastar em  baldios, uvas pisadas com os pés para obter o mosto, limpeza e poda de àrvores com serrotes, descamisadas e debulhadas do milho nos serões de verão, ceifar e malhar o trigo na eira, idas à serra para apanhar gravetos, candeios, pinhas e agulho para acender as lareiras, roçar mato para as estrumeiras e para os currais, matar o porco para a salgadeira, amassar e cozer o pão para toda a semana em fornos a lenha, (que saudades da brindeira de milho cozida sobre uma folha de couve, com uma petinga  azeite e cebola no seu miolo), etc.  Pariam-se muitos filhos para garantir apoio para sobrevivência na velhice. Criavam-se porcos, cabras, ovelhas, coelhos e galinhas. Não havia reformas nem subsídios, não havia rádio, nem televisão, nem jornais. O dia terminava ao sol posto. Éramos auto-suficientes.

Hoje, no século seguinte, sento-me na soleira da porta da minha casa e sinto-me nostálgico ao estabelecer as diferenças que observo: Não vejo passar um único homem com enxada ou outra ferramenta para trabalhos no campo, poucos são os campos cultivados, passam carros de marca,  BMW , Mercedes e outros a alta velocidade, tractores com reboque que transportam as famílias, máquinas que pulverizam tudo, que arrancam àrvores e as cortam em madeira normalizada, máquinas que esmagam as uvas, máquinas que debulham o milho e o trigo, quando há,  padeiros que nos vêm vender pão, que já não precisamos cozer, peixeiros que nos vêm vender peixe, que já não precisamos pescar, carteiros que nos trazem o correio que já não é preciso ir levantar à loja. Não nos deixam criar o porco e matá-lo para conservar na salgadeira, para todo o ano. Já não se pode  dizer a ninguém: bom dia!, boa tarde!, boa noite!, porque não passa ninguém, calmamente, a pé.

Esta já não é a minha terra de então. Já não temos salgadeiras, agora substituídas pelas arcas frigoríficas, já não bebemos água da fonte ou do poço, porque nos canalizaram a água para casa, já não temos lanternas e candeeiros a petróleo ou azeite porque nos ligaram à rede de electricidade, já não precisamos de acender lareiras porque existe aquecimento a gáz, electricidade ou gasóleo, já não nos apetece sair para conhecer mundo porque temos a televisão que nos mostra tudo, já não precisamos ir  visitar ninguém para saber se estão bem porque temos telemóvel para lhes falar sem sair de casa, já não é preciso trabalhar porque os governos de agora ou nos dão a reforma ou subsídios de desemprego ou subsídios de reinserção social. Já não temos pobres para ajudar, porque a assistência social lhes  tráz comida a casa, ajuda-os a fazer a sua higiene e da própria casa.

Agora perguntam-me: A vida era mais interessante antigamente ou  actualmente. Por favor!!, vocês sabem a resposta.

 

Ccarifas

publicado por carifas às 22:49

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