Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2008

- ANDAR FORA -

O Sr. António está em casa? – Não, foi andar fora. Esta expressão ainda hoje utilizada por quem presta trabalho no campo, dia a dia, a terceiros, é a forma que expressa a ausência de casa nos trabalhos sazonais para que são falados.

Ganhar a jorna, para garantia do sustento da família era preocupação diária de todos, com a venda da sua força de trabalho. Não havia contratos nem ragalias sociais. O vínculo a cada patrão terminava no fim de cada dia. Apenas ganhavam o estabelecido consensualmente pela comunidade e aceitavam-no sem contestação. Era melhor patrão o que oferecesse mais e melhor “pinga”, hábito enraizado, como se fosse de facto um direito institucional. Evitava-se mesmo aqueles que se sabia não ser generosos com o garrafão à frente da cava, em fases de maior oferta de trabalho. No acto de ser falado estabeleciam a ferramenta própria  – enxada rasa, enxada de pontas, foice, machado, etc. -  com que  deveriam apresentar-se ao trabalho.

Oh! Zé, podes ir andar fora para mim na próxima quarta-feira. – Não, já estou prometido.

Os trabalhos podiam ser prestados em quartéis, meios-dias e dias inteiros, conforme as necessidades do patrão e das condições do tempo.

Andar fora,  podia ser ao pé da porta ou bem longe de casa. Dependia de quem lhes chegava primeiro à fala, habitualmente nas tardes de domingo, nas tabernas.

Entre os trabalhadores fazia-se a troca directa de dias de trabalho para tarefas nas suas próprias terras, entreajudando-se.

As casas grandes e ricas eram as maiores empregadoras, dispunham de um capataz que orientava os trabalhos e o patrão só aparecia, geralmente ao fim da tarde, mostrando a sua presença, quer para provocar incentivo nos trabalhos, quer controlando a hora do despegar, que deveria coincidir com o toque das Avé-Marias no sino da igreja. Os homens,  a trabalhar desde o nascer do sol, já exaustos, faziam aqui um esforço para mostrar qualidades que o levassem a lembrar-se deles para outros trabalhos, em outros dias.

Existia um sentimento generalizado de revolta imperceptível, na dação do esforço desumano a troco de quase nada, mas aceite como destino das suas vidas, sem outra saída. Afinal, iam sobrevivendo, abafando nas suas mentes com críticas mordazes e satíricas que lhes confortavam o espírito, divertindo-os, apenas expressadas entre os seus iguais e quando o alcóol lhes dava coragem.

Destapavam a cabeça à sua passagem em sinal de respeito, mas têm do patrão das grandes casas, uma imagem austera, de pessoa distante, de um mundo diferente, que satirizam assim:

   

  

    

                                  Estômago dilatado, com relógio de ouro na ponta

                                  Sobretudo nas costas até ao chão,

                                  A dois metros da cava observa

                                  Sem saber que os que cavam a sua terra herdada

                                  Têm da vida menos favores que o seu cão

 

                                

                                  Nem sorriso comprado se lhe arranca

                                  Nem favor, na disciplina do seu feudo

                                  A ralé comenta-lhe na ausência

                                  Que p’ra ele, nem o fedor de um seu peido

 

                                  E se arrancam a crosta dura da sua terra

                                  Roubando energia ao coração

                                  Sentem roubar-lhe o prazer

                                  De ganhar o seu próprio pão

Ccarifas

Paio Mendes/Ferreira do Zêzere

publicado por carifas às 13:09

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1 comentário:
De M. a 6 de Fevereiro de 2008 às 10:39
Então Sr. Carifas, como era o carnaval no seu tempo?

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