Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2008

O FESTEIRO

Recordar-se-ão, sobretudo os mais velhos como eu, o que eram as festas anuais  em cada freguesia, com os atractivos do foguetório, da quermesse, da banda filarmónica, da tômbola de rebuçados, das tascas improvisadas, da barraca de chá, das mesas do capilé e do café, da boleira, das fogaças, das corridas de sacos e de cântaros e, finalmente, do fogo de artifício, que encerrava a festa.

Estas festas, de carácter religioso mas com fortes tradições pagâs, em tempos em que as nossas gentes viviam em completo isolamento, não tendo chegado ainda até eles a telefonia ou a televisão, eram a manifestação mais marcante e esperada em cada ano, constituindo-se no momento em que finalmente todos se desligavam do trabalho e das preocupações, independentemente do seu fervor religioso.

Ir à festa significava ir com toda a família, com  farnel, fato domingueiro e com as economias na carteira, aforradas a propósito, para suportar com dignidade a ida à quermesse, à barraca de chá, às tascas, às mesas do café e finalmente à mesa do festeiro-mor para oferecer a sua contribuição para as despesas da festa, recebendo aí a oferta de um número de foguetes de cana, conforme a contribuição oferecida.

A figura típica dos homens desta época tinham um retrato marcante, que defino assim:

 

                De paletó adomingado

                 O lenço de pontas no bolso do casaco, bem dobrado

                Adornado p’la caneta de tinta permanente

                Vai p’rá festa aperaltado

 

                 Chapéu de feltro na cabeça

                 Com dobras em geito de pimpão

                 A um lado a imagem de Nossa Senhora

                 No outro uma pena de pavão

 

                 As botas de meio cano com elástico

                  O rasto em borracha de pneu

                  Deixa no chão o seu traçado

                  Gaba-se de o mais bonito ser o seu

 

                   Se participava na zaragata habitual

                   Das que sempre aconteciam

                   Sentia cheio o orgulho macho  

                   No olhar de respeito dos que o viam

                    

                    Regressa contrariado pela madrugada

                    Bêbado de tanto se divertir

                    Arrasta atrás de si a mulher e os filhos

                    Caminha na frente, jurando que pró ano torna a vir

Ccarifas

Paio Mendes/Ferreira do Zêzere

publicado por carifas às 20:09

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2 comentários:
De Daniel Mendes a 20 de Janeiro de 2008 às 17:08
Olá Padrinho!
Tal como o outro afilhado que já comentou, não quero com este comentário limitar-me a este post , mas sim a todos os posts colocados até agora e que com enorme prazer acabei de ler.
Quero que saiba que ao ler o seu blog vem-me à memória as tardes ou noites passadas quer a lareira quer ao pé do forno (a depender se é inverno ou verão) a ouvir estas e muitas outras histórias. Quer contadas pelo padrinho quer por muitas outras pessoas que tornam a casa dos meus avós (dos seus país) um verdadeiro canto da tertúlia. Sempre dei imenso valor a esses momentos, mas é agora que estou longe que sinto mais falta deles que sinto uma maior nostalgia a ler estes textos.
Peço-lhe que continue com este trabalho fantástico para que eu não seja um dos pouco privilegiados , desta nova geração, e que para além do conforto e tecnologia, outros passem também dizer que tiveram acesso a um sem número de contos que lhes mostra que a vida nem sempre foi fácil, mas que as pessoas sempre deram a volta por cima.
Com a imaginação repleta de momentos que me trazem saudades e com o pedido para continuar:
Um abraço
De carifas a 21 de Janeiro de 2008 às 22:28
Também eu gostei que gostasses. Nós, os mais velhos, sentimos, ao saber que somos ouvidos pelos mais novos, ilusão ou não, que deixamos algum legado. E o mérito também é de quem sabe ouvir.
Um abraço
CNunes

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