Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008

AS FEIRAS DO CHOFER

 

A vida de Ivo Fradique empurrou-o para lutas de sobrevivência que o levou a trabalhar em diferentes àreas de serviços.

De entre elas, foi empregado de mesa em barracas de feira, servindo refeições aos frequentadores destas, num tempo em que o lucro fácil e ocasional se sobrepunham à higiene e qualidade da comida.

Ivo Fradique, rotinado nestas andanças dominava este mundo com facilidade e a dose de esperteza e inteligência suficientes para tirar o melhor proveito desta actividade sazonal.

Dos muitos episódios que descreve nas conversas que mantém connosco, recordando episódios dessa sua actividade, deliciamo-nos com a sua oratória e com a originalidade dos factos que descreve, fruto da experiência obtida desde os pátios do Campo Grande, onde nasceu e aprendeu a sobreviver na dureza dos anos 30, conto-vos duas das suas histórias.

A FEIRA DA GOLEGÃ

(O REI DAS MEIAS DOSES)

 

Naquela época, a feira da Golegã ainda tinha fortes características rurais, com grande afluência de pessoas oriundas de aldeias e povoados de todo o Ribatejo e não só, que se deslocavam para ali a pé, de burro, de carroça, de cavalo ou de camioneta.

Não havia limites para o negócio que se quisesse explorar nestas feiras desde que se encontrasse um espaço livre em qualquer esquina ou terreiro.

Foi para lá trabalhar para o restaurante Camartelo, improvisado em barraca construida para o efeito.

Naquele dia a ementa cozinhada era dobrada com feijão branco cozida num caldeirão, em fogueira acesa nas traseiras da barraca.

Quando se aproximou a hora de almoço logo começaram a aparecer os primeiros clientes esfomeados, que se foram sentando nas mesas improvisadas, atraídos pelo cheiro da dobrada.

O primeiro cliente que atendeu pediu que lhe fosse servida uma dose de dobrada.

Dirigiu-se ao patrão e gritou: Sai uma dose!!!.

Quando “saiu”a enorme travessa cheia de dobrada para servir o cliente, teve imediatamente a ideia de pôr em prática um esquema que se revelaria bastante lucrativo.

Ele pagava ao balcão as encomendas que fazia e recebia de cada cliente o que este consumia.

Então, a partir daí, por cada cliente que ali chegava e pedia para ser servido de uma dose de dobrada, dirigia-se ao balcão e pedia meia dose que servia ao cliente como se de uma dose se tratasse. Ou seja, passou a receber do cliente o preço de uma dose e pagava ao patrão a meia dose encomendada.

Ninguém reclamou e teve um dos dias mais lucrativos enquanto trabalhou nesta actividade. No final do dia o patrão ainda comentou que ele tinha sido o rei das meias doses.

A FEIRA DA LUZ

Também aqui nesta feira, que se realiza todos os anos no mês de Setembro, no Largo da Luz, em Carnide, o “Chofer” ou Ivo Fradique, prestou serviços numa barraca de comes e bebes.

Um dia, depois da azáfama da noite e numa altura em que estavam já a fazer preparativos para encerrar,  surge um Cabo-Verdiano visivelmente embriagado, que clamava atabalhoadamente: Eu querer comer um galinha. O Chofer que se preparava para sair, disse-lhe que já não serviam refeições porque estavam a fechar.

Porém o Cabo-Verdiano, cambaleante e sem o ouvir dirigiu-se para uma mesa e voltou a gritar: Eu querer um galinha.

Apesar da hora tardia o Chofer viu nele mais um cliente que engordaria a receita do dia. Dirigiu-se a ele, complacente e concordou em servir-lhe a refeição, mas disse-lhe que teria que pagar antecipadamente, porque o “caixa” ia sair, embora, em boa verdade, tivesse receio que este, depois de comer, não tivesse dinheiro para pagar.

O Indivíduo, quase inconscientemente, pagou a refeição e ficou a aguardar. O seu estado de embriaguês era de tal modo que segundos depois adormeceu com a cabeça apoiada nos braços, em cima da mesa.

Ao ver este cenário o Chofer lamentava-se com o atraso que este cliente de última hora lhe iria provocar. No estado em que este estava, quando é que iria terminar a refeição para que pudesse seguir para casa.

Contudo, encomendou um frango e um jarro de vinho e foi colocá-los na mesa do cliente, que continuou a dormir.

Teve então a seguinte ideia perspicaz, fruto da sua argúcia e das vivências aprendidas nestes ambientes de feira, em que os menos prevenidos ou inexperientes nestas andanças podem ser “caçados”.

Retirou o frango da mesa e pediu no balcão uma travessa cheia de ossos de frango dos restos das refeições antes servidas e um jarro vazio. Dirigiu-se com eles  para a mesa onde dormia o negro  colocando-os  à sua frente.

Em seguida, abanou-o para o acordar, iniciando o seguinte diálogo:

- Oh! Meu, tá na hora de dares de frosque, vamos fechar.

Estremunhado e apático levantou a cabeça  com os olhos arregalados e exclamou: Eiih! Patrão: eu querer um galinha.

- Outra “meu” já comeste essa que tens aí à frente e não estás enfartado.

- Andexe que queremos fechar.

- Mas patrão eu querer............

- Não há mais nada pra ninguém, vamos de bute....

Agarrou-o por um braço, levou-o até à saída e fê-lo seguir caminho, ficando com o dinheiro no bolso de uma refeição que não foi consumida.

publicado por carifas às 09:58

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