Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2008

A CARTA

Tempos houve, antes do aparecimento do telefone e do telemóvel, que a comunicação entre as pessoas deslocadas, familiares e outros, se fazia apenas por carta, hábito quase extinto que desabituou as pessoas de exercecer o saudável hábito da escrita como forma de comunicação entre si.

Nesse tempo, em que não havia ainda carteiros porta a porta, o hábito de receber correio era um cerimonial de expectativa, que culminava, nas frequentes vezes que nos deslocavamos à Loja, posto de recepção e distribuição da mala do correio, que era transportada pela camioneta da carreira que vinha de Lisboa, com a pergunta ao caixeiro, antes de tudo: - Há correio para mim?. Enquanto ele abria a gaveta e rebuscava no correio recebido, ficávamos ansiosos, tal como o jogador de rifas que espera ter um prémio.

Em cada casa, a leitura de uma carta era um ritual de concentração de toda a família, lida em voz alta pelo elemento da família que soubesse ou melhor soubesse ler e escutado pelos restantes num silêncio respeitoso, quantas vezes com uma lágrima a soltar-se. Muitas vezes a leitura era repetida para melhor se perceber as mensagens que trazia.

Nas casas onde não havia quem soubesse ler, repetia-se o convite ao habitual escrivão, geralmente uma criança, agora para a leitura, que compartilhava os dramas ou as alegrias que a carta transportava,

A carta era o mensageiro indesmentível das boas e das más notícias na forma de documento escrito, elaborada de forma pensada e cuidada, de forma a transmitir factos e sentimentos vividos.

Elas tinham geralmente um formato peculiar, quase estandardizado, sobretudo na abertura e no fecho que, a quem como eu, fez algumas vezes de escrivão, não precisava  ser ditado. Fui muitas vezes convidado a escrever cartas por pessoas que, sendo analfabetas, me gratificavam por este trabalho. Sentia-me como o operador de código morse, que envia mensagens secretas, sujeito a completo sigilo.

O seu formato tinha habitualmente a seguinte configuração:

Meu querido filho

Muito estimo que ao receberes esta minha carta te encontres de perfeita e feliz saúde, que nós por cá todos bem, graças a Deus.

Tem esta o fim de te agradecer a tua última amável carta que recebemos, portadora de boas notícias, que muito nos alegrou.

Por aqui tudo continua na mesma, com o muito trabalho e canseira que as sementeiras nos têm dado. Se o Borda-de-Água não faltar ao previsto, vamos ter uma boa colheita.

Saberás que no verão, quando cá vieres para as férias, como prometido, virás encontrar a apanha do milho que é preciso descamisar e debulhar. Quanto mais braços tivermos melhor se termina a faina.

O pai, coitado, farta-se de trabalhar. Depois de terminar o tempo dos lagares, anda a trabalhar, de sol a sol, nas podas e nas alimpas, porque brevemente irá trabalhar para o forno quando começar a aquecer. Tem ficado alguns dias em casa, para tratar das nossas, porque eu e as tuas irmãs não damos conta de tudo.

A nossa porca pariu oito bácoros que já estão em acção de vender. As chibas este ano deram três cabritos que já vendemos ao Tensa e têm dado bom leite para fazer os queijos que tu tanto gostas.

Cá recebemos o teu cabaz com as mercearias e o cartucho de café, que tem melhor paladar que aquele que trazemos da loja.

Brevemente vou às Besteiras despachá-lo com alguma fruta, que já está madura. Quero ver se te mando também um galo para fazeres uma sopa e uns queijos secos para matares saudades.

Já andam por aí os prospectos da festa de Paio Mendes. As tuas irmãs andam a fazer peditório de prendas para a quermesse.

Sem mais, recebe saudades do teu pai e das tuas irmãs e um beijo desta que te quer bem.”

CCarifas

Paio Mendes/Ferreira do Zêzere

publicado por carifas às 12:19

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1 comentário:
De Cila a 3 de Janeiro de 2008 às 15:34
Olá Carlos!!! Não posso deixar de fazer um comentário a esta carta, pois não sou deste tempo mas ouço as minhas tias e mãe falarem das cartas que recebiam do meu tio!! é claro que até me faz lembrar as conversas da minha avó, a menina Rosa do Fundo da Rua. Para quem não conhece o Fundo da Rua, é uma rua cheia de pessoas encantadoras e com muitas histórias de encantar! Gostei muito!

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