Domingo, 29 de Abril de 2012

PARA MEMÓRIA FUTURA

 

Nasci e cresci no Fundo da Rua na Freguesia de Paio Mendes à quase setenta anos e nunca mais de lá saí. Pelos muitos locais onde circulei, quer em Lisboa, onde vivo, quer nalguns países da europa, onde passeei, quer em áfrica, no serviço militar, sempre senti a necessidade o desejo e a saudade do meu cantinho, que aprendi a estimar como a minha própria vida. Foi ali que aprendi a andar, a falar e a ter sentimentos de relação afectiva do mundo e das pessoas que me rodearam. Aprendi a cultura muito própria dos nossos naturais. Por muito que venhamos a aprender ao longo da vida, nada irá substituir o que assimilámos nos primeiros anos de vida. É como a raiz que sustenta a àrvore que, embora venha a ser podada, moldando-a, mantém a mesma raíz que lhe dá vida.

Tive uma infância feliz e revivo amiúde as incidências dessa fase, que mantenho vivas:

É com nostalgia que recordo as minhas idas à loja do “Catrino” fazer recados à minha mãe. A loja representava naquele tempo uma espécie de disneylândia, tal a variedade de cheiros e de produtos que ali eram expostos para venda. E,

Ir ao Guilhermino Sapateiro levar calçado para arranjo ou tirar as medidas aos pés, colocando-os em cima de uma folha de papel pardo que ele circundava com um lápis para que me fizesse umas botas. A sua oficina era só por si um local de sonho pelas ferramentas estranhas que se observavam. E,

Ver passar o Moleiro de Dornes com o burro carregado de farinha nos seus alforges, que distribuia porta a porta. E,

Ouvir o original toque do Capador em aproximação, para capar os porcos ou porcas, vindo da longínqua Pombeira montado no seu cavalo, geralmente embriagado, embora sempre eficaz na sua função de operador. Se se tratava de um porco, a minha mãe fritava os testículos para uma merenda deliciosa que o capador, sem pressas, também compartilhava. E,

Frequentar a Escola primária com os companheiros da minha geração, descobrindo as letras e os números que os professores que tive, me ensinaram. E,

Ir levar o jantar ao meu pai ao lagar ou ao forno, no inverno e no verão. E,

Caçar pássaros com pescórcias e descobrir ninhos. Apanhar agúdias nos formigueiros ou lagartas nos troços do milho, para servirem de isco. E,

Descobrir uma qualquer roda e fazer uma gancheta para circular com ela, como se fosse um veiculo sofisticado. E,

Ver o Espanhol, contrabandista de tecidos, que aparecia uma vez por ano. Vendia, sobretudo, tecidos de bombasine, serrobeco, sarjas e mitras(boinas) entre outros, que trazia envoltos numa manta em forma de trouxa, que carregava às costas. Era um alentejano simpático, que dormiu algumas vezes no palheiro da casa dos meus avós, depois de aparecer na taberna à noite para solicitar permissão ao meu pai. O facto de o saber a dormir lá fazia-me imaginar as suas aventuras desde as longíquas terras de onde vinha. E,

Viver as matanças de porco que se faziam em minha casa e em casa dos meus tios, uma vez por ano, que eram grandes festas familiares. O meu pai era era o matador e procedia também à desmancha no dia seguinte. O porco ficava pendurado no chambaril até ao dia seguinte para escorrer todo o sangue. Eram dois dias fartos em acepipes. E,

Ouvir, de madrugada, a passagem do carro de bois do Fernando do Daniel para trabalhos de lavoura, repetindo a cada instante a frase com que dirigia a junta de bois: “Cás-tráz-cabano-aí-hoo- Filhos da p......” . E,

Ouvir o meu tio Manel passsar de manhã cedo em direcção ao adro para o mata- bicho  e gritar na janela do meu quarto. “Alevanta-te meu mandrião".  Eram os bons-dias dele. E,

Espreitar a minha tia Augusta na sua passagem semanal com o alguidar de tremoços à cabeça, para a taberna, para receber um punhado deles, poucos, mas que me deliciavam. E,

Esperar pela noite para me sentar ao lume com a minha mãe, aguardando a chegada do meu pai, à luz de uma candeia de azeite. E,

Ouvir, no inverno, a chuva e o vento a baterem no telhado e sentir os pés aquecidos pelo gato que vinha todas as noites dormir à minha cama. E,

Comer as sopas de café com leite ou de almécere ou farinha maizena que a minha mãe deixava junto à lareira, para se manterem quentes, antes de ir aos seus trabalhos. E,

Pedir a benção ao meu pai e aos meus tios, como saudação. Dizia-a de forma mecânica do seguinte modo: “adeus mê pai cetáçabenção”. Só muito depois vim a perceber que deveria dizer: Adeus meu pai, dê-me a sua benção. E,

Percorrer, descalço, a alta velocidade, os percursos para a Renda ou para o Salão de Cima.

Participar nas vindimas e ajudar a pisar as uvas no lagar da adega do meu pai para obter o mosto que se transformaria em vinho. E,

Servir copos de vinho na taberna e ouvir as conversas adultas dos que por ali apareciam. E,

Notar as alterações de comportamento naqueles que se embriegavam. E,

Assistir a zaragatas, por pequenas zangas, provocadas pelos excessos de bebida. E,

Construir um forno de cerâmica, com o meu amigo Necas, à semelhança daquele onde o meu pai trabalhava, para cozer peças em barro que fazíamos com moldes que nós próprios construimos. Ou fazer um telefone com caixas de graxa e fio enrrezinado, que retirava dos foguetes que apanhava quando se realizava a festa de Paio Mendes. E,

Espreitar, de manhã cedo, a possível queda de laranjas para o caminho que passava abaixo do muro alto do terreno onde se encontrava a laranjeira do Sr. Camilio, única neste local, para correr a apanhá-las e deliciar-me com elas. E,

Conviver com homens, que recordo com saudade, com caracteristicas muito particulares, já desaparecidos, mas que se evidenciavam no nosso mundo rural fechado ao conhecimento do que no mundo ia acontecendo. Recordo, particularmente, o Nascimento Nunes, o Manuel Cebola e o António do “Génio”, homens, entre outros, que evidenciavam conhecimentos superiores à generalidade das pessoas. Qualquer deles eram fontes de conhecimento que a minha idade imberbe não absorvia. Só mais tarde os reconheci. Nascimento Nunes, do Soutireira, Nerú ou cara de cão, era um orador nato, que sabia colocar no seu discurso tal intensidade dramática que provocava emoções a quem o ouvia, fazendo inveja às descrições de Aquilino Ribeiro nas cenas rurais do Malhadinhas. Assinante do Diário de Notícias (imagine-se, naquela época) debitava notícias e conhecimentos que embasbacava quem os ouvia. Os jornais tinham para ele duas utilidades. A leitura e a limpeza da navalha com que barbeava os clientes. Foi serrador (profissão já extinta), barbeiro, taberneiro e caçador de raposas que transportava aos ombros de porta em porta para ser recompensado com ovos das galinhas que ficavam a salvo de assaltos às suas capoeiras.

Volto agora, frequentemente à minha primeira vida e não consigo identificar-me com ela. Nada é igual. Muito menos as pessoas.

ccarifas

 

 

 

 

 

publicado por carifas às 19:03

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Domingo, 22 de Abril de 2012

O QUE DIZER

 

 

 

È pouco e muito mais do que me apetece. No entanto esse pouco para mim é muito. Sendo assim, devo calar-me. Porém não dizendo nem o muito nem o pouco, não digo sequer o pouco que preciso dizer. Assim sendo, fico dividido entre o muito e o pouco pela incapacidade de síntese para dizer o muito em muito pouco. Afinal, porquê dizer o que pensamos por pensarmos que tem de ser dito, se apenas repetimos o óbvio.

Tudo está dito por todos.O que está por dizer ainda não é sabido. Quando for dito, todos repetiremos, sem necessidade de repetir o que foi dito. A natureza humana tem hábitos de fala e repete o que outros falaram. Se todos falássemos apenas o que sabemos, só alguns falavam o pouco que sabem.

Atribua-se cansaço à fala para que o que for dito seja apenas o que deve dizer-se.

CCarifas

publicado por carifas às 12:50

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UM CERTO ESTILO ALOURADO

 

“L...reparava com ansiedade que, por sua vez, o esclarecimento também precisava de ser esclarecido. Logo o tomava o medo de que, por falta de rigor, o não acreditassem, de maneira que acrescentava todas as precisões de tempo, lugar e modo que lhe ocorriam. Mas o tempo, lugar e modo têm as suas particularidades, um antes e um depois, um perto e um longe, um seco e um molhado, um limpo e um sujo, um preto e um branco, um rápido e um lento... Havia que escolher de entre as alternativas a mais verdadeira, que só valia sendo bem circunstanciada, com tempo lugar e modo. E se não acreditassem na palavra dele, lá estava Fulano e Beltrano a confirmar. E se esses não se lembrassem, ele avivava as memórias, lembrando o fato castanho de um e a exclamação “ele há cada uma!” de outro, que aliás, tinha proferido num sítio muito determinado que era... mesmo junto a ... logo a seguir... até vinha passando F... o qual se acercou e disse... ao que respondera... e até passou o comboio das nove e... E quanto mais descorria, mais assustado ficava L... Ao receio de que não tivesse sido suficientemente rigoroso e persuasivo, acrescia a consciência de que estava a maçar, de maneira que passava a intercalar um “eu acabo já, é só mais um instante” de dez em dez segundos, e começava a exprimir-se cada vez mais depressa. Mas então sobrevinha a sensação de que todos se haviam já esquecido do que havia dito em primeiro lugar e apressava-se a repeti-lo, de maneira mais enfática, acontecendo que lhe ocorriam entretanto diversos pormenores que enriqueciam a história. E aproveitava a ocasião para corrigir particulares que tinham sido mal contados.

Quem o conhecesse sabia não valer a pena interrompê-lo, mesmo usando artes cortesãs ou rudezas militares. Interpelado a meio do discurso, calar-se-ia humildemente.

Mas enquanto esperava, os sinais de inquietaçãp multiplicavam-se na face e aqueles esgares tornavam-se insuportáveis a quem o olhasse. E ao retomar a palavra, logo na primeira oportunidade, faria tábua rasa de tudo o que entretanto se dissesse e regressaria ao seu próprio discurso anterior, completando-o com os pormenores que, enquanto aguardava, a sua tumultuosa memória desencantara.......

Texto retirado do livro

“Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto”

Do autor, Mário de Carcalho

publicado por carifas às 12:42

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