Sábado, 19 de Fevereiro de 2011

UM S.MARTINHO EM PAIO MENDES

 

Estamos no dia de S. Martinho, em 1950.

Este tinha sido um ano de farta colheita de uvas e as adegas estavam cheias, como há alguns anos se não via. Sentia-se por isso um forte apelo às tradicionais provas, na expectativa de saber se à quantidade também corresponderia a qualidade. Nada melhor que convidar os amigos para efectuar as provas tradicionais do dia de S. Martinho e saber deles a opinião sobre a “pomada” do ano, embora se saiba que essa coisa de aromas e paladares são coisas reservadas  a frutas.

O Manél Alcobia, ou Manél da Teresa, como era mais conhecido, era homem de horizontes largos, pois tinha experiências de vida invulgares, pouco comuns aos seus iguais daquele tempo, como seja a sua expedição a àfrica, e ao que se diz, até terá participado na prisão do Gungunhana.

Na véspera deslocara-se à Serrada e apanhou uns quilos de castanhas e trouxe de caminho um molho de agulho para fazer o magusto que iria compartilhar com os amigos. Deu ordens à mulher para as trinchar e meter-lhe uma mão de sal da salgadeira.

A seguir ao jantar, cerca das duas horas da tarde, com a samarra pelas costas, desceu as escadas que dão acesso à adega. Ainda vinha a comer a sobremesa. Um naco de toucinho preso na mão esquerda entre o indicador e o polegar e um bocado de pão de milho preso por baixo, na mesma mão, que cortava em pedaços com a navalha na mão direita. Calmamente sentou-se no banco feito de uma tábua de pinho assente em duas pedras, nas extremidades.

Não tardou que chegasse o primeiro conviva. Era o Xico Clemente que morava ali à distância de um grito. De camisa branca, coisa rara por aqui, mas o dia era de festa, salientava-lhe ainda mais o enorme nariz avermelhado e marcado por um sinal negro. Saudou:

- Olá compadre!

- Olá compadre!

Sentou-se no mesmo banco e enquanto falavam do tempo, surgio o Zé Narciso em passo apressado, ofegante, que a subida desde a fonte é ingreme. Homem de grande porte e de falas apressadas parece ter sempre pressa em partir para outro destino, saudou:

- Santas e boas!

- Adeus oh Zé, responderam ambos.

E voltou a falar-se do tempo.

O Artur Granja que morava a meia distância entre o Manél da Teresa e o Zé Narciso, surgiu à saída da azinhaga que passa por detrás da casa do Fona. Em passo calmo e de samarra pelas costas parou antes de atravessar a estrada e procurou, abrindo ligeiramente as pernas para obter rigidez no equilibrio, colar com a língua a mortalha do cigarro de onça que vinha a fazer. Só depois de o acender com o isqueiro a petróleo, avançou em direcção ao local onde os outros se encontravam, com a pressa de quem não tem pressa nenhuma.

- Boa tarde meus senhores!

- Boa tarde!

Logo se avistou à saída da mesma azinhaga, os restantes convidados. Os irmãos Carifas, o Manél e o Joaquim que vinha ao ritmo do irmão Manél amparado com um sacho para facilitar a sua dificuldade de locomoção devido aos calos de que sofria.

- Santas e boas!  disseram ambos.

- Boas tardes!

Bem, meus senhores, como já cá estão todos o melhor será atacar o postigo, senão morremos de sede.

-Já cá tarda, disse o Zé Narciso.

O Manél da Teresa agarrou na verruma e no espicho que tinha feito na véspera e tratou de começar a furar o tonel.

-Passem-me aí esse copo que isto já está a verter até ao postigo. O Zé Narciso foi mais rápido e deu-lhe o copo que rápidamente se encheu com o forte esguicho que saía do barril. Meteu-lhe o espicho para estancar a hemorragia do vinho. O Zé Narciso esvaziou o copo de uma vezada.

- Então Zé, que tal achas o vinho?

- Ora, não é com um copo que se faz uma prova. Volte a enchê-lo que já falamos. Quanto mais de resto é assim mesmo.

- Espera, que os outros também são gente. O melhor é encher a picheira para que não se babe tanto vinho.

Encheu a picheira e começou a servir os restantes compinchas. O primeiro foi o Manél Carifas, que opinou: Cá por mim bebe-se bem. Eu até não sou esquisito. Já tenho bebido pior.

O Xico Clemente que ansiava pela sua vez, foi o seguinte a beber e estalando com a língua disse: Escorrega bem. Se não azedar há-de ser todo bebido.

Passou em seguida o copo ao Artur Granja que o bebeu e, franzindo as sobrancelhas, exclamou: Bem, bem, bem, bem. Deixem passar-lhe o inverno por cima que o há-de acabar de curar.

O Joaquim Carifas, com fama de bom fabricante de vinhos, era opinião a considerar, daí que o Manél da Teresa esperava com curiosidade a sua apreciação.

- Bom, é um vinho encorpado mas a precisar de mais tempo de remanso, que o tempo e o frio tratará dele.

O Zé Narciso, teve finalmente o segundo copo que bebeu, deitando um pouco na palma da mão que esfregou até aquecer. Cheirou as mãos e disse: Tem grau para subir à cabeça.

- Oh! Pessoal, rematou o Manél da Teresa, vamos lá para fora acender o agulho e assar as castanhas para fazer boca para mais uns copos.

Todos se dirigiram para o terreiro. Foram ao monte da lenha e tiraram, cada um, um cepo, que levaram para junto do agulho, onde se sentarem.

Enquanto as castanhas assavam bebeu-se mais uma rodada. Uma que não fora trinchada rebentou com grande estrondo e na pausa que se seguiu, alguém comentou: - Já abriu a caça. Todos se riram.

Com a ponta das botas cardadas iam puxando as castanhas para fora do agulho e com as mãos já negras da descasca iam sujando e embaciando os copos.

Durante a tarde o Manél da Teresa como bom anfitrião não parava de reeencher a picheira, pois era preciso que todos fossem satisfeitos.

Pelo sol posto já com os corpos quentes, despediram-se, deixando convite para visitaren as suas adegas, ficando apenas o Xico Clemente que morava ali mesmo ao lado. Os outros seguiram ladeira abaixo, todos juntos, que o caminho era o mesmo até à fonte. Atrás deles seguia o Manél Carifas abrindo cada passo com o cuidado de parecer não querer nem desequilibrar-se nem querer tocar com os pés no chão.

                                                                                                                  Ccarifas

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O MEU TIO PORRAS

Manuel Nunes, o Porras, Zé dos calos ou mais genéricamente Manuel Carifas era uma figura peculiar que marcou a minha juventude. Figura simpática e popular, era o dono da taberna situada junto à igreja de Paio Mendes.

Do género rezingão, fazia contudo transparecer uma cordialidade pouco comum ao homem analfabeto e sofredor de grave doença crónica de pele.

A sua figura e a forma como se deslocava, devido à proliferação de calos nos pés, provocavam ditos jocosos a quem o via deslocar-se, sem que deixasse de ser respeitado. Não raras vezes se via o ti Manél sentado à porta da taberna, descalço, a desbastar, com a mesma navalha com que cortava a bucha, os malditos calos que o atormentavam.

O seu maior martírio era, porém, o percurso entre a sua casa, no Fundo da Rua e a taberna, sobretudo para conseguir subir a íngreme ladeira que o obrigava, por vezes a ir com as mãos ao chão devido à grande inclinação desta.

Todos os dias pelo sol posto, lá subia ele pela terceira vez a ladeira, para abrir as portas ao pessoal que largava o trabalho e ali parava habitualmente para beber. Embora o seu vinho nem sempre fosse do melhor, não havia outra taberna próxima e lá lho iam consumindo, que no tarde apresentava sempre um “pico”, como lhe chamavam. Se alguém lho referia, respondia: se não gostas, não bebas, que eu acho-o bom. E para provar a sua qualidade, emparceirava com cada um, a quem pagava também a sua rodada.

O sacristão que se deslocava cronométricamente à igreja três vezes por dia para tocar os sinais, era porventura o que mais compartilhava as suas lamentações, já que este não deixava nunca, de cada vez, de ir lá beber uma selha de vinho. Era tal a sua regularidade que, logo que se houvia a última badalada, o ti Manél começava logo a preparar-lhe o copo. Era o único freguês que aparecia, na maior parte dos dias pela manhã e pela hora do meio dia. Por isso fazia questão de estar sempre presente porque era freguês de considerar.

Quando pelas dez horas da noite era obrigado a fechar, pegava na lanterna a petróleo e não raras vezes cambaleando, lá seguia ladeira abaixo à procura das couves que a mulher mantinha ao lume na panela de ferro.

A meio do caminho cruzava-se sempre com o irmão Joaquim que vinha igualmente da sua taberna no Salão de Cima, a caminho de casa. Era uma situação curiosa. Enquanto ele se deslocava para a sua casa  próxima da taberna do irmão, este deslocava-se para a sua, próxima da taberna dele. Dir-se-ia que o destino, por capricho de heranças, providenciou que os irmãos se cruzassem todos os dias àquela hora.

Anos e anos seguidos neste encontro diário a horas em que o cansaço era já manifesto e muitas vezes a cabeça toldada pelo vinho ingerido.  Cruzavam-se cumprimentando-se apenas com um ; Olá compadre!. Era assim que se tratavam. O Clarão da luz das suas lanternas aproximava-se, fundia-se e voltava a separar-se. Qualquer comentário era feito em movimento, por vezes já de costas a caminho das suas casas. Só algum acontecimento marcante ou troca de opiniões em qualquer negócio os fazia parar.                                              

A sua mulher, a tia Augusta, era uma pessoa circunspecta, pouco cordata. Constratava com o seu feitio bonacheirão e dado ao amoroso. Esperava-o sempre com cara de pau, sabendo de antemão que este já viria com um copito a mais. É sempre a mesma coisa, dizia-lhe, não há um dia que não venhas entornado. E depois a sopa vai para os porcos.

Mais do que a sopa, apetecia-lhe chegar a casa para poder sentar-se ao lume e descalçar-se, aliviando as dores nos pés.

No dia seguinte, ao sol nado,  já o Ti Manél, amparado ao sacho que o acompanhava sempre, servindo de bangala, tinha percorrido novamente o caminho para Paio Mendes para tomar o seu mata-bicho, servir o sacristão e mais alguém que aparecesse.

Tinha fama de forreta mas não era sovina. Gostava de oferecer um copo a um amigo. E se considerava a ocasião especial ou tinha especial deferência pela visita, convidava-o mesmo para a adega, como sinal de consideração, fugindo ao ambiente da taberna, para evitar o constragimento de pagar o vinho que se bebia. 

No verão de 1964, aquando do cumprimento do meu serviço militar, fui visitá-lo acompanhado por um colega, natural do norte, logo desconhecido na terra. Por consideração pela insólita visita, convidou-nos para a adega. Ali chegados pôs à nossa disposição o barril para que bebessemos o que nos apetecesse. Ele sentou-se numa pequena dorna virada para baixo porque os calos não lhe permitiam estar de pé muito tempo e seriamos nós a encher os copos. Pouco habituados a beber sem qualquer alimento, decidi correr à taberna e trazer dois copos de tremoços num prato de alumínio que a minha prima Nelita me serviu. Cada copo de tremoços custava, naquele  tempo, um tostão. Assim voltámos a beber mais um copo ou dois.

Acabada a visita e quando nos despediamos à porta da adega, o ti Manél virou-se para mim e disse: Oh! Carrrlos (ele carregava nos erres) olha que o vinho que bebeste e o teu amigo e mais o que te apetecer é por minha conta, mas quanto aos dois tostões de tremoços passa ali pela taberna e faz contas com a tua prrima.

Recordo ainda um dos momentos de maior felicidade que vivi quando teria 9 ou 10 anos de idade e ele me desafiou para ir com o seu burro ao ferrador, a Besteiras. Quase não dormi na noite anterior ao dia combinado para esta façanha. Quis o acaso que tivesse achado umas esporas ferrugentas que levei escondidas para utilizar logo que estivesse fora do alcance da sua vista. Com o burro encilhado e as recomendações dos cuidados a ter, lá arranquei serenamente até sentir que podia finalmente pôr as esporas e fazer voar o burro em corrida desenfreada. Ia eufórico, porque  estava a viver a aventura que imaginara nos sonhos da noite anterior. Até que despertei do sonho que estava a viver. Tinha chovido e no percurso, junto à traseira da casa do José Gaspar havia um grande lamaçal com água que assustou o burro e o fez parar repentinamente fazendo uma enorme derrapagem seguida de queda e me projectou por cima da sua cabeça para um grande banho de lama. Encharcados, eu e o burro, que consegui voltar a montar quando este ainda se tentava levantar, prossegui a viagem com novos encitamentos e esporadas que provocaram no burro tal descontrolo que resolveu sair do caminho e meter-se na vinha do Joaquim da Serrada como louco desvairado. Não fora os homens que andavam a trabalhar na vinha conseguirem refrear a besta e acalmá-la e não sei onde teria ido parar. Finalmente resolvi então seguir em marcha moderada e lá cheguei ao ferrador, que se surpreeendeu ao ver o burro todo suado e sujo de lama.

Recordo com saudade a sua figura simpática que deixou o vazio dos que, por serem marcantes, são insubstituíveis.

Ccarifas

publicado por carifas às 20:45

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