Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2008

O FESTEIRO

Recordar-se-ão, sobretudo os mais velhos como eu, o que eram as festas anuais  em cada freguesia, com os atractivos do foguetório, da quermesse, da banda filarmónica, da tômbola de rebuçados, das tascas improvisadas, da barraca de chá, das mesas do capilé e do café, da boleira, das fogaças, das corridas de sacos e de cântaros e, finalmente, do fogo de artifício, que encerrava a festa.

Estas festas, de carácter religioso mas com fortes tradições pagâs, em tempos em que as nossas gentes viviam em completo isolamento, não tendo chegado ainda até eles a telefonia ou a televisão, eram a manifestação mais marcante e esperada em cada ano, constituindo-se no momento em que finalmente todos se desligavam do trabalho e das preocupações, independentemente do seu fervor religioso.

Ir à festa significava ir com toda a família, com  farnel, fato domingueiro e com as economias na carteira, aforradas a propósito, para suportar com dignidade a ida à quermesse, à barraca de chá, às tascas, às mesas do café e finalmente à mesa do festeiro-mor para oferecer a sua contribuição para as despesas da festa, recebendo aí a oferta de um número de foguetes de cana, conforme a contribuição oferecida.

A figura típica dos homens desta época tinham um retrato marcante, que defino assim:

 

                De paletó adomingado

                 O lenço de pontas no bolso do casaco, bem dobrado

                Adornado p’la caneta de tinta permanente

                Vai p’rá festa aperaltado

 

                 Chapéu de feltro na cabeça

                 Com dobras em geito de pimpão

                 A um lado a imagem de Nossa Senhora

                 No outro uma pena de pavão

 

                 As botas de meio cano com elástico

                  O rasto em borracha de pneu

                  Deixa no chão o seu traçado

                  Gaba-se de o mais bonito ser o seu

 

                   Se participava na zaragata habitual

                   Das que sempre aconteciam

                   Sentia cheio o orgulho macho  

                   No olhar de respeito dos que o viam

                    

                    Regressa contrariado pela madrugada

                    Bêbado de tanto se divertir

                    Arrasta atrás de si a mulher e os filhos

                    Caminha na frente, jurando que pró ano torna a vir

Ccarifas

Paio Mendes/Ferreira do Zêzere

publicado por carifas às 20:09

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Terça-feira, 15 de Janeiro de 2008

MANIFESTO - Um tempo atrás dos nossos tempos

 

 

Todos os dias tinham manhãs. As tardes eram lógicas consequências que antecediam o anoitecer.

A madrugada alvorecia com movimentos costumeiros que se repetiam em hábitos normalizados.

Começava um novo dia, melancolicamente aceite como destino inevitável.

Só acasos despertavam o estúpido acordar.

Partia o Manél com a junta de bois, o Zé com a carroça arrastada pela mula, o Toino com o burro encilhado, sem dizerem um até logo, esperando ganhar o tempo que não ganhavam.

Doses de dias seguidos servidos às suas vidas, acrescentavam-lhe apenas idade.

Adrenalina estagnada, só elevava valores na desgraça própria ou alheia.

Retornos cansados, refúgios em bebedeira, alegrias inconscientes, brutalizavam a noite em sonos precoces, sem dizerem boa noite.

O viver, de comer e de beber, era a meca da peregrinação das suas vidas, crendo felizes os gordos e infelizes os magros.

Tapetes de alcatrão à porta impediam a existência de estrumeiras, que recordavam, nostálgicos.

Hábitos grotescos de casas de banho, provocavam raquitismos no amanho do quintal.

A sala de visitas era na adega.

Vizinho nunca estava longe de mais.

O muito e o pouco era estupidamente igual.

Salivavam melhor, maldizendo.

A felicidade era parceira da ignorância.

 

Ccarifas

Paio Mendes/Ferreira do Zêzere

publicado por carifas às 10:46

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Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008

AS FEIRAS DO CHOFER

 

A vida de Ivo Fradique empurrou-o para lutas de sobrevivência que o levou a trabalhar em diferentes àreas de serviços.

De entre elas, foi empregado de mesa em barracas de feira, servindo refeições aos frequentadores destas, num tempo em que o lucro fácil e ocasional se sobrepunham à higiene e qualidade da comida.

Ivo Fradique, rotinado nestas andanças dominava este mundo com facilidade e a dose de esperteza e inteligência suficientes para tirar o melhor proveito desta actividade sazonal.

Dos muitos episódios que descreve nas conversas que mantém connosco, recordando episódios dessa sua actividade, deliciamo-nos com a sua oratória e com a originalidade dos factos que descreve, fruto da experiência obtida desde os pátios do Campo Grande, onde nasceu e aprendeu a sobreviver na dureza dos anos 30, conto-vos duas das suas histórias.

A FEIRA DA GOLEGÃ

(O REI DAS MEIAS DOSES)

 

Naquela época, a feira da Golegã ainda tinha fortes características rurais, com grande afluência de pessoas oriundas de aldeias e povoados de todo o Ribatejo e não só, que se deslocavam para ali a pé, de burro, de carroça, de cavalo ou de camioneta.

Não havia limites para o negócio que se quisesse explorar nestas feiras desde que se encontrasse um espaço livre em qualquer esquina ou terreiro.

Foi para lá trabalhar para o restaurante Camartelo, improvisado em barraca construida para o efeito.

Naquele dia a ementa cozinhada era dobrada com feijão branco cozida num caldeirão, em fogueira acesa nas traseiras da barraca.

Quando se aproximou a hora de almoço logo começaram a aparecer os primeiros clientes esfomeados, que se foram sentando nas mesas improvisadas, atraídos pelo cheiro da dobrada.

O primeiro cliente que atendeu pediu que lhe fosse servida uma dose de dobrada.

Dirigiu-se ao patrão e gritou: Sai uma dose!!!.

Quando “saiu”a enorme travessa cheia de dobrada para servir o cliente, teve imediatamente a ideia de pôr em prática um esquema que se revelaria bastante lucrativo.

Ele pagava ao balcão as encomendas que fazia e recebia de cada cliente o que este consumia.

Então, a partir daí, por cada cliente que ali chegava e pedia para ser servido de uma dose de dobrada, dirigia-se ao balcão e pedia meia dose que servia ao cliente como se de uma dose se tratasse. Ou seja, passou a receber do cliente o preço de uma dose e pagava ao patrão a meia dose encomendada.

Ninguém reclamou e teve um dos dias mais lucrativos enquanto trabalhou nesta actividade. No final do dia o patrão ainda comentou que ele tinha sido o rei das meias doses.

A FEIRA DA LUZ

Também aqui nesta feira, que se realiza todos os anos no mês de Setembro, no Largo da Luz, em Carnide, o “Chofer” ou Ivo Fradique, prestou serviços numa barraca de comes e bebes.

Um dia, depois da azáfama da noite e numa altura em que estavam já a fazer preparativos para encerrar,  surge um Cabo-Verdiano visivelmente embriagado, que clamava atabalhoadamente: Eu querer comer um galinha. O Chofer que se preparava para sair, disse-lhe que já não serviam refeições porque estavam a fechar.

Porém o Cabo-Verdiano, cambaleante e sem o ouvir dirigiu-se para uma mesa e voltou a gritar: Eu querer um galinha.

Apesar da hora tardia o Chofer viu nele mais um cliente que engordaria a receita do dia. Dirigiu-se a ele, complacente e concordou em servir-lhe a refeição, mas disse-lhe que teria que pagar antecipadamente, porque o “caixa” ia sair, embora, em boa verdade, tivesse receio que este, depois de comer, não tivesse dinheiro para pagar.

O Indivíduo, quase inconscientemente, pagou a refeição e ficou a aguardar. O seu estado de embriaguês era de tal modo que segundos depois adormeceu com a cabeça apoiada nos braços, em cima da mesa.

Ao ver este cenário o Chofer lamentava-se com o atraso que este cliente de última hora lhe iria provocar. No estado em que este estava, quando é que iria terminar a refeição para que pudesse seguir para casa.

Contudo, encomendou um frango e um jarro de vinho e foi colocá-los na mesa do cliente, que continuou a dormir.

Teve então a seguinte ideia perspicaz, fruto da sua argúcia e das vivências aprendidas nestes ambientes de feira, em que os menos prevenidos ou inexperientes nestas andanças podem ser “caçados”.

Retirou o frango da mesa e pediu no balcão uma travessa cheia de ossos de frango dos restos das refeições antes servidas e um jarro vazio. Dirigiu-se com eles  para a mesa onde dormia o negro  colocando-os  à sua frente.

Em seguida, abanou-o para o acordar, iniciando o seguinte diálogo:

- Oh! Meu, tá na hora de dares de frosque, vamos fechar.

Estremunhado e apático levantou a cabeça  com os olhos arregalados e exclamou: Eiih! Patrão: eu querer um galinha.

- Outra “meu” já comeste essa que tens aí à frente e não estás enfartado.

- Andexe que queremos fechar.

- Mas patrão eu querer............

- Não há mais nada pra ninguém, vamos de bute....

Agarrou-o por um braço, levou-o até à saída e fê-lo seguir caminho, ficando com o dinheiro no bolso de uma refeição que não foi consumida.

publicado por carifas às 09:58

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O “CHOFER”

Agora com 69 anos de idade, Ivo, ou Chofer, como é conhecido, goza a reforma nas imediações do seu habitat actual, na Pontinha, depois de um percurso de vida atribulado com experiências profissionais em áreas que foram, entre outras, serralheiro, soldador, feiras populares, carris ou distribuidor de electrodomésticos.

Figura típica Lisboeta, nascido num dos pátios, já desaparecidos, do Campo Grande na década de 30 do século passado, viveu a pobreza e enfrentou as naturais carências da época  com a mesma naturalidade e como se destino traçado fosse e que hoje descreve movido pela nostalgia daqueles tempos.

Figura inconfundível, com cerca de metro e meio de altura, voz sonante e porte galhardo de quem não tem complexos, exterioriza a experiência das suas  vivências aprendidas na escola malandra das gerações nascidas no campo grande, depois atiradas para bairros sociais limitrofes com o avanço da urbanização da cidade naquela zona, composta até aí por quintas e pátios.

De entre as muitas histórias que ouvi dele, umas, fruto da ratice que aprendeu naquele ambiente rico de carências e hostilidades, outras de carácter humano que reflectem essas duas componentes, há esta que vos conto e que acho deliciosa:

         A MARMITa

 Ivo, frequentou a Escola Primária do Campo Grande num edificio onde se localizava também a esquadra da Polícia.

Deixemo-lo, porém, contar a história na primeira pessoa:

“O meu professor era deficiente motor. Arrastava uma perna suportado por uma bengala. Albergava-se numa taberna próxima que lhe fornecia a alimentação e a dormida.

Devido à sua dificuldade de locomoção, todos os dias mobilizava um aluno, escolhido ao acaso, para se deslocar ali para lhe trazer o almoço.

Certo dia, coube-me executar esta tarefa.

E lá fui eu, com espirito de missão fazer o recado ordenado pelo professor.

Ali chegado dirigi-me ao taberneiro e solicitei o almoço do sr. Professor.

Eu era pequenino, quase do tamanho da marmita, que era redonda, com dois patamares sobrepostos, um para a sopa e outro para o prato de peixe ou carne, com  tampas de enroscar e uma asa para o transporte. Quando me deslocava já em direcção à Escola,  tive uma tentação. Espreitar o que ia dentro da marmita.

Parei, pus a marmita no chão e desenrosquei a tampa. Era  caldo verde  e bife com batatas fritas com ovo a cavalo. Aquele cheirinho quase me fez desmaiar. Andava sempre com as “peles vazias” e aquilo foi  a maior tentação que alguma vez tivera.

Era irresistivel. Mudei de rumo e dirigi-me para o pinhal da Musgueira.

Fiz ali o maior e melhor piquenique que alguma vez imaginara. Deliciado e confortado com tamanho banquete resolvi enterrar a marmita,  digerir o manjar e voltar para casa, ignorando a Escola.

No dia seguinte, de manhã, a minha estranha recusa em seguir para a Escola obrigou a minha mãe a levar-me lá e entregar-me ao professor.

O professor esperava-me para se  vingar. Fechou a porta por dentro e perseguiu-me por entre as carteiras da sala, com grande dificuldade, até eu me dicidir entregar ao inevitável.

Bateu-me até  saciar a sua raiva.

Fiquei revoltado. Porque não teria eu, pensei, tanto direito quanto ele a um bife com batatas fritas.

 Idealizei a minha vingança.

Ele, tinha o hábito de  ir sentar-se ao fim da tarde, depois das aulas, num banco do jardim do Campo Grande, fazendo horas para o jantar.

Eu era uma espécie de Guilherme Tell da fisga. Esperei-o, num fim de tarde, escondido nuns arbustos com a fisga carregada com um calhau, até que ele se sentasse no banco habitual.

Acertei em cheio. O homem gritou e saltou com as mãos na cabeça rachada. Nunca veio a saber quem o vitimou. Senti-me vingado da tareia que levara.”

Mais tarde, o taberneiro, já sabedor do autor da proeza aliciou-me com 5 escudos para recuperar a marmita, que desenterrei e lhe devolvi. Com 5 escudos no bolso, senti-me um vencedor.

 

 

publicado por carifas às 09:31

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Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2008

A CARTA

Tempos houve, antes do aparecimento do telefone e do telemóvel, que a comunicação entre as pessoas deslocadas, familiares e outros, se fazia apenas por carta, hábito quase extinto que desabituou as pessoas de exercecer o saudável hábito da escrita como forma de comunicação entre si.

Nesse tempo, em que não havia ainda carteiros porta a porta, o hábito de receber correio era um cerimonial de expectativa, que culminava, nas frequentes vezes que nos deslocavamos à Loja, posto de recepção e distribuição da mala do correio, que era transportada pela camioneta da carreira que vinha de Lisboa, com a pergunta ao caixeiro, antes de tudo: - Há correio para mim?. Enquanto ele abria a gaveta e rebuscava no correio recebido, ficávamos ansiosos, tal como o jogador de rifas que espera ter um prémio.

Em cada casa, a leitura de uma carta era um ritual de concentração de toda a família, lida em voz alta pelo elemento da família que soubesse ou melhor soubesse ler e escutado pelos restantes num silêncio respeitoso, quantas vezes com uma lágrima a soltar-se. Muitas vezes a leitura era repetida para melhor se perceber as mensagens que trazia.

Nas casas onde não havia quem soubesse ler, repetia-se o convite ao habitual escrivão, geralmente uma criança, agora para a leitura, que compartilhava os dramas ou as alegrias que a carta transportava,

A carta era o mensageiro indesmentível das boas e das más notícias na forma de documento escrito, elaborada de forma pensada e cuidada, de forma a transmitir factos e sentimentos vividos.

Elas tinham geralmente um formato peculiar, quase estandardizado, sobretudo na abertura e no fecho que, a quem como eu, fez algumas vezes de escrivão, não precisava  ser ditado. Fui muitas vezes convidado a escrever cartas por pessoas que, sendo analfabetas, me gratificavam por este trabalho. Sentia-me como o operador de código morse, que envia mensagens secretas, sujeito a completo sigilo.

O seu formato tinha habitualmente a seguinte configuração:

Meu querido filho

Muito estimo que ao receberes esta minha carta te encontres de perfeita e feliz saúde, que nós por cá todos bem, graças a Deus.

Tem esta o fim de te agradecer a tua última amável carta que recebemos, portadora de boas notícias, que muito nos alegrou.

Por aqui tudo continua na mesma, com o muito trabalho e canseira que as sementeiras nos têm dado. Se o Borda-de-Água não faltar ao previsto, vamos ter uma boa colheita.

Saberás que no verão, quando cá vieres para as férias, como prometido, virás encontrar a apanha do milho que é preciso descamisar e debulhar. Quanto mais braços tivermos melhor se termina a faina.

O pai, coitado, farta-se de trabalhar. Depois de terminar o tempo dos lagares, anda a trabalhar, de sol a sol, nas podas e nas alimpas, porque brevemente irá trabalhar para o forno quando começar a aquecer. Tem ficado alguns dias em casa, para tratar das nossas, porque eu e as tuas irmãs não damos conta de tudo.

A nossa porca pariu oito bácoros que já estão em acção de vender. As chibas este ano deram três cabritos que já vendemos ao Tensa e têm dado bom leite para fazer os queijos que tu tanto gostas.

Cá recebemos o teu cabaz com as mercearias e o cartucho de café, que tem melhor paladar que aquele que trazemos da loja.

Brevemente vou às Besteiras despachá-lo com alguma fruta, que já está madura. Quero ver se te mando também um galo para fazeres uma sopa e uns queijos secos para matares saudades.

Já andam por aí os prospectos da festa de Paio Mendes. As tuas irmãs andam a fazer peditório de prendas para a quermesse.

Sem mais, recebe saudades do teu pai e das tuas irmãs e um beijo desta que te quer bem.”

CCarifas

Paio Mendes/Ferreira do Zêzere

publicado por carifas às 12:19

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COMO ERA ..................1940

Retrato de uma família

Começou naquele dia o tempo de inverno, embora não tivesse chegado ainda a sua época.

A noite envolvera já a encosta que suportava a velha casa com tecto de telha vam e com duas paredes de madeira que deixavam entrar pelas frestas o vento frio que soprava bastante forte. A casa tinha apenas uma divisória num dos cantos e no oposto fazia-se o fogo numa lareira sem chaminé, com a lenha que os gaiatos tinha apanhado nos pinhais circundantes. Ao lume estava uma panela de ferro dependurada por um arame que pendia de uma viga do tecto, cozendo couves com batatas e um pedaço de toucinho. O fumo fazia remoinhos espalhando-se por toda a casa.

A chuva intensificava-se e a escorrência das águas da encosta começou a entrar pelas fendas abertas nas tábuas apodrecidas.

O homem da casa ainda não chegara. Ainda não era tarde. Trabalhava de sol a sol e passava sempre pela taberna na esperança de beber um copo que um amigo lhe pagasse ou o taberneiro lhe fiasse.

Para conter a entrada da água a mãe disse aos gaiatos que fossem às traseiras com uma sachola tentar desviá-las, senão o lume podia apagar-se e as enxergas onde dormiam podiam ficar encharcadas. Descalços, lá foram, brincando, na expectativa de enganarem os cursos da água. E conseguiram-no abrindo dois regos em forma de V invertido, cada um passando à direita e à esquerda da casa.

Voltaram para dentro da casa encharcados e foram aquecer-se junto da fogueira onde ainda fervia a panela de ferro. O mais velho, encostado à parede, teve que afastar-se dela porque já escorria água. Tiritavam de frio ansiando pela malga de couves que a mãe iria servir quando acabassem de cozer. Desde que chegaram da escola que ainda não tinham comido nada.

A mãe meteu a colher de pau dentro da panela e mexeu as couves esmagando um talo entre os dedos para saber se já estavam cozidas.

Do lado do alpendre, virado a nascente e com vista para o ribeiro que passava ao fundo da ravina, ouviu-se o barulho da enxada do pai a bater no chão. Tinha chegado e estava a arrumá-la com a saca de serapilheira que trazia às costas. Lá dentro fez-se silêncio e aguardou-se a sua entrada. Até saber-se se ele viria bêbado ninguém ousou falar.

- Boa noite!

 Em coro, os filhos responderam : - Adeus meu pai. Dê-me a sua benção se faz favor.

- Deus vos abençoe.

A mulher atenta ao ferver da panela nem se virou.

Afinal hoje, ou porque o patrão deu pouca pinga ou porque não foi bem sucedido na taberna, estava sóbrio. Até a mãe ficou à vontade para falar: Oh! Homem, chega-te aqui ao lume que o tempo está mau e as couves estão quase cozidas.

Dobrado e com ar fatigado foi sentar-se no lado direito da lareira num tronco de madeira de eucalipto, que era o lugar habitual dele. Quando se sentou, peidou-se e todos baixaram a cabeça para retrair emoções. Aproveitou para raspar das calças a terra que traziam agarrada quase até aos joelhos, com um graveto que tirou do canto da lenha.

A mãe foi buscar as malgas de aluminio já enrrugadas pelo muito uso, para servir a sopa, meio curvada pelas dores nas costas que a posição que tinha enquanto esteve sentada ao lume lhe provocara, percorreu o espaço da lareira à cantareira com os pés descalços em cima da terra batida já humedecida pela água das chuvas que desobedecia aos regos abertos lá fora pelos filhos. Quando voltou, sentou-se no meio deles com uma concha de alumínio enegrecida e encheu-as  servindo primeiro o marido, juntando-lhe o pequeno naco de toucinho que a ele devia fortalecer para ter forças para ir trabalhar no dia seguinte.  Começaram a comer em silêncio. Quando o pai levava o toucinho à boca salivavam para a colher em comunhão de prazer por aquele gosto que não era preciso provar para saber o quanto era bom.

A mãe foi depois buscar uma tijela de azeitonas retalhadas, das que tinha apanhado aqui e acolá, nos caminhos por onde passava, que comeram com uma fatia de broa de milho já bastante duro, cozido no domingo anterior.

Acabaram a refeição confortados com aquela sopa quentinha e as azeitonas com broa e pelo conforto daquele cheirinho a toucinho que o pai comeu e que  partilharam imaginariamente com a noção de que ele (com a sua jorna) era a via para que a  mãe pudesse ir à loja ao fim de cada semana levantar  as massas e  o arroz que comiam com tanto prazer.

Acabaram de comer e antecipavam já o prazer da próxima refeição que ainda vinha longe.

Lá fora, a chuva e o vento intensificavam-se e adivinhava-se a invasão das águas em toda a casa. Foi preciso arrastar a enxerga das raparigas para a desviar de uma beira que começara a cair.

Voltaram novamente ao lume acrescentando alguns paus de ramos de pinheiro para atear a fogueira.

-Hoje, diz o pai, houvi dizer ao patrão que a guerra lá no estrangeiro está brava. Espero que não chegue cá.

Ao ouvirem isto os quatro rapazes e as três raparigas ficaram a olhar para o pai com a expectativa que este dissesse mais sobre aquilo da guerra.

- Amanhã tenho que levantar-me um pouco mais cedo para ir trabalhar para a Quinta do Além. Levo pelo menos uma hora de caminho. Vamos lá ver se faço pelo menos um quartel. Com esta chuva....

-Oh! homem se não fazes o dia, vou ter de mandar apontar no rol o avio prá semana.

- O tempo é que manda! respondeu.

- A conta lá na loja está a crescer e “ele” já me olha de esguelha. Ainda se alguém falasse à mais velha, nem que fosse para sachar ou apanhar azeitona. Sempre ajudava.

 Amanhã vais levar o talêgo contigo.Vais pra longe e os cachopos vão prá escola. As mais velhas vão sachar-me as couves que puses-te ao pé do ribeiro e acartar o esterco. Ainda assim, com este tempo, se calhar não ficas por lá todo o dia.

-Olha e tu não te esqueças de ir amanhã ao mato para fazer a cama aos porcos e pôr aqui no terreiro da entrada.

 Os cachópos quando vierem da escola que vão armar as pescórcias, porque andam por aí os tordos e pode ser que caia algum, que daria uma boa assadura.

Entretanto a cozinha já estava inundada por fios de água que atravessavam a casa e  saiam no lado oposto em direcção à ribeira a uma velocidade obediente à inclinação da encosta.

– Vamos dormir, disse o pai. Já devem ser nove horas.

Todos se levantaram e cada um foi para a respectiva enxerga. Eram três. Uma para 2  rapazes e uma para as três raparigas. O mais velho dormia num buraco escavado na barreira que servia de parede às traseiras da casa depois do apodrecimento das tábuas que antes separavam a casa da barreira. Dessas tábuas restava a metade que pendia do telhado. Dentro do buraco escavado fora aberto um rego lateral para escorrência das águas infiltradas. O pai e a mãe tinham o previlégio de dormir numa cama de ferro, herdada dos avós, com colchão guarnecido com camisas de milho, na única divisão da casa.

A mãe afastou os tições para os lados com a tenaz, para que o lume se apagasse e foi também deitar-se.

O conforto do calor dos corpos em cada cama era o prazer de cada um para transitar para o dia seguinte, naquele ambiente frio e húmido, hoje acrescido dos sons do vento e da chuva.

No dia seguinte o pai levantou-se de madrugada, enfiou a saca de serapilheira na cabeça e colocou as enxadas nos ombros, a rasa e a de pontas, e lá seguiu caminho. Ainda chovia e a noite estava escura como breu. Tinha pouca esperança de pegar no trabalho. Adivinhava-se, daqui prá frente, até acabar a época das chuvas, muitos dias de costas ao alto.

Os rapazes e a rapariga mais nova, ainda em idade escolar, seguiram para a escola, com os livros enfiados em pequenos sacos de serapilheira que a mãe tinha feito e com um pequeno talêgo, feito igualmente pela mãe, onde levavam uma fatia de pão de milho com um pedaço de queijo, feito do leite das duas duas cabras que tinham e que eram obrigados a apascentar todos os dias quando regressavam da escola.

Antes de sairem comeram as sopas de pão com o almécere que sobrou do leite com que se fizeram os queijos no dia anterior.

Lá seguiram descalços, ladeira acima por entre a água que corria ainda em abundância, para atingir a estrada que levava à escola, que ainda ficava longe. Sem chapéus ou outra protecção para a chuva que ainda caía, agora sem a intensidade da que caiu de noite, chegaram à escola molhados mas sem frio pelo esforço da caminhada.

A mãe e as duas filhas mais velhas carregaram à cabeça, cada uma, um cesto de estrume retirado do curral do porco, levaram a única sachola que havia e lá seguiram para a pequena horta, no fundo do vale, junto ao ribeiro, para o espalhar e sachar as couves que estavam cheias de erva. Quando acabassem passariam para o outro lado do ribeiro para raspar o mato que era preciso para fazer nova cama ao porco e espalhar no terreiro de entrada para evitar o lamaçal. O pai tinha obtido consentimento do dono da charneca, quando o encontrara na taberna, no domingo anterior, para a raspoila do mato.

Regressaram por volta do meio dia com um molhe de mato à cabeça, cansadas, mais pela dificuldade de subir a íngreme encosta que do esforço dos trabalhos que haviam realizado. Depois de espalharem o mato no curral dos porcos e na entrada da casa a mãe deu ordem às raparigas para descascar batatas para o almoço. Lembrou-se que das sardinhas que comprara na segunda-feira no mercado ainda “cresceram” duas que repartiriam entre as três. Seriam um excelente “conduto”, regadas com algum do pouco azeite que ainda sobrava na talha.

Tardava em chegar a época do Natal para que se fizesse a matança do porco, para voltar a haver carne na salgadeira e alguns enchidos.

Depois foi deitar aos porcos algumas cabeças de nabo que trouxera da horta e abrir a capoeira às galinhas para poderem procurar alimento.

Havia agora esperança com as raparigas, agora com corpo e idade para trabalhar que fossem lembradas para ser faladas para a apanha da azeitona. O isolamento do local ondem viviam não as tornava notadas.

Passavam-se os dias melancólicamente, repetindo-se os hábitos aprendidos, nesta inércia de pobreza sem perspectivas de serem alterados por qualquer motivo que desconheciam poder existir.

Veio o domingo, igual a tantos outros já passados. O badalar do sino na igreja para chamamento dos fiéis à missa dominical soava para eles apenas como música longínqua em local distante e inacessível para eles. Não havia preparos para vestir e calçar para poderem ir lá, como  outros faziam.

O pai levantou-se cedo e foi cavar e preparar terra para semear nabiças, conforme aconselhava o Borda-de-Água. Tinha que aproveitar o domingo para fazer estes trabalhos. Os dias da semana eram para ganhar a jorna  para ajudar no sustento da família. À tarde iria até à taberna distrair-se com os amigos e beber uns copitos.

A mãe tendeu a massa de farinha de milho e acendeu o forno para cozer o pão para a semana. Hoje haveria brindeiras recheadas com cebola e um pingo de azeite, cozidas sobre uma folha de couve.

À tarde, depois do pai ir para a taberna a mãe foi sentar-se numa pedra encostada ao tronco de uma oliveira onde ainda batia o sol, com o cesto da costura, para remendar roupas e pôr fundilhos numa calças.

Os miúdos pediram à mãe para irem até lá acima à estrada. Queriam ver o que passava e até algum carro que pudesse aparecer. Tinham houvido dizer na escola que no domingo amterior passara lá um. A rapariga mais velha ficou a ajudar a mãe e à espera que ela lhe catasse as lêndeas da cabeça.

CCARIFAS

Paio Mendes/Ferreira do Zêzere

publicado por carifas às 12:02

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