Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2007

O PICOTO E OS TAROCOS

Frequentei a Escola Primária de Paio Mendes até concluir a 4ª classe e o Exame de Admissão ao Liceu e às Escola Técnicas, como se chamava naquele tempo, entre os anos de 1950 e 1954.

Tive vários professores, sendo que o primeiro e melhor amigo das crianças que conheci foi o Profº. Leopoldo, casado com a Profª. Conceição, esta, terror das raparigas de então e até certo ponto dos rapazes, quando resolvia fazer investidas à nossa sala para corrigir indisciplinas que o marido permitia. Esta mulher era uma disciplinadora austera que incutia medo nas crianças. A sua casa, ainda hoje existe à direita do início da descida do Salão de Cima, na estrada que vai para Dornes. Cruzava-me com ela, a medo, nas muitas vezes que fazia o percurso para a taberna do meu pai, que se situava perto da sua casa.

 Mas este ainda foi o mal menor com que convivi na Escola. Todos os meus colegas daquele tempo se recordam certamente, dos professores Janeiro e Mineiro da 3ª e 4ª classes. Se é certo que o prof. Janeiro, que, se bem me recordo, era regente e razoavelmente tolerante, o prof. Mineiro era um carrasco violento que provocou mazelas e traumas em muitos de nós. Um dia contarei o que me aconteceu com ele.

Terá sido o prof. Janeiro que nos mobilizou para uma visita ao marco geodésico da serra da Junqueira, que nós conhecíamos apenas por Picoto. Passado já mais de meio século, espero não cometer imprecisões que a memória já não consiga retractar fielmente.

Ficámos todos excitados e expectantes para tamanha e original aventura. Neste tempo ainda não havia hábitos de ocupação de tempos livres, nem de visitas a museus ou idas à praia. A maior parte de nós ocupava os seus tempos livres a guardar gado ao fim da tarde, descobrir ninhos de passáros ou a armar as pescórcias. Para muitos de nós já era sorte manterem-nos na Escola até a concluir.

Avisados a tempo os nossos pais para os preparativos daquele dia, criámos a expectativa sonhadora de uma aventura num dia diferente passado longe de casa. A Serra da Junqueira ficava-nos a uma distância infinita. O local mais distante a que me tinha deslocado até então fora a Ferreira do Zêzere, a pé, acompanhar a minha mãe com um porco, para ser vendido no mercado, agitando um saco de milho à sua frente para lhe despertar a gula, que só saciou, perseguindo-o, quando chegou ao mercado.

A minha mãe, ciente da importância que representaria uma visita de estudo, coisa em que nunca tínhamos ouvido falar, resolveu ir à loja do Sr. “Catrino” (mais tarde loja do Fidalgo, para os mais novos), comprar-me uns tarocos novos. Estes tarocos eram fabricados com um rasto de madeira bem alto, e o corpo do pé era de uma matéria do tipo papelão prensado, pregado à madeira do rasto. De cor preta brilhante, provocaram-me um sentimento de vaidade que o resto da farpela que a minha mãe preparou para eu vestir nesse dia passou para segundo plano. Recordo-me ainda que custaram a exorbitância de Esc. 7.50. (cerca de 4 cêntimos, se fosse hoje).

Foi com pompa e circunstância que os calcei, estreando-os, no dia da ansiada viagem de estudo.

Como calcularão, naquele tempo, logo a seguir ao fim da II guerra mundial, a pobreza e a falta de meios eram o retracto das nossas gentes ainda em recuperação do período de racionamento que viveram. Vivia-se em pura estagnação e sem expectativas no horizonte das nossas vidas. De entre todos os meus companheiros de Escola apenas dois ou três se mantiveram na terra Todos os outros migraram, sobretudo para Lisboa, na ânsia de construir uma vida melhor que aquela que a nossa terra nos poderia oferecer. Escusado será dizer que fomos para a serra a pé.

O percurso, iniciado na Escola, passou por Courelas, Olheiro, Ribeira do Olheiro, subimos a encosta até à estrada de alcatrão, que pisámos com a satisfação de quem chega a um mundo diferente, e daí seguimos até à Junqueira onde iniciámos a subida da serra da Junqueira até ao Picoto.

Aqui as minhas botas novas já davam sinais de intolerância ao esforço de tanta pedra pisada e à transposição das irregularidades dos terrenos calcorreados, mostrando, para meu grande desgosto, alguns dedos dos pés a espreitarem pela biqueira que entretanto se abrira com o desprendimento da cartolina prensada dos pregos que a seguravam à madeira do rasto.

Ainda consegui chegar calçado ao alto da serra com grande esforço e cuidados no pisar, mas já com bastante incómodo nos pés.

Ali chegados, ficámos deslumbrados com a imensa paisagem que se avistava e discutimos palpites para identificação das povoações que se avistavam no horizonte. Recorda-me a euforia de procurar pedras de amolar, mais do que observar o Picoto. Sabíamos, por tradição, que em todas as casas da nossa região havia uma pedra para afiar as facas, navalhas ou outras ferramentas que eram trazidas dali em ritual que era cumprido por todos, pelo menos uma vez na suas vidas, quando se casavam ou construiam a sua própria casa. A que o meu pai lá foi buscar quando era novo, é enorme e ainda se encontra fixada junto ao poço da sua casa.

Acompanhou-nos nesta odisseia para além do professor, o Sr. Alexandre “Marinheiro”, da Costa, pai do Adriano do Rogério e do Celestino, que transportou um tacho com comida e o inevitável garrafão.

Não me recordo das explicações que o professor terá dado sobre as funcionalidades do Picoto, nem tão pouco o que comemos, mas retenho na memória o alívio e ao mesmo tempo o desgosto de ser obrigado a deixar os tarocos na serra, completamente desfeitos, e fazer o caminho de regresso confortávelmente descalço.

Recordo aqui com saudade três companheiros desta aventura, já desaparecidos. O Joaquim “Tareco” o Zé Vicente e o Tó Louro.

CCARIFAS

Paio Mendes/Ferreira do Zêzere

publicado por carifas às 19:51

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