Terça-feira, 10 de Setembro de 2013

CARTAS DE AMOR, OU NÃO, DOS ANOS 60

 

No interior profundo do meu país e concretamente na minha terra as relações amorosas eram um tabú insondável com características originais que passavam pelo simples avistamento da “presa” ou pelo vencimento de barreiras de extractos sociais tão ténues como a herança esperada de três bocados de terra. A forma mais usual para a aproximação à desejada era a remessa de uma carta, que expedida, viajava mais do que o remetente alguma vez teria podido fazer. O pretendente razava a zona da pretendida a pé ou de bicicleta ( se a tivesse) para se sentir notado.

Não havia paixões ou corações despedaçados, mas apenas o natural desejo de acasalamento que qualquer animal faria sem necessidade de saber escrever.

Aqui, os famíliares, alertados pela requisição do namoro, faziam avaliações das conveniências, em função das perspectivas dos ganhos, anuindo ou não à sua aceitação.

Havia, porém, uns mais atrevidos e namoradeiros que outros. Porque mais desinibidos com atrevimento para a chalaça e natural simpatia que cativavam as moçoilas àvidas de conquistar homem.

Existiu um caso paradigmático, no meu tempo, que ainda hoje é recordado com admiração, que terá interpretado a lenda do Casa Nova que o cinema nos recriou.

Ao contrário do seu desejo, revelarei o seu nome, porque não se tratando de devassa da sua vida, é, pelo contrário, uma homenagem ao seu passado, sem conter comprometimento que envergonhe.

O meu primo ROMEU NUNES DA SILVA, homem de muitos afazeres na sua vida activa, hoje aposentado, viveu a sua juventude no meio rural da nossa terra no ambiente de pobreza generalizada que se vivia então. Viveu no seio de uma família com uma filosofia de vida que cultivava a sátira e a brincadeira jocosa que mantinha a sua vivência num plano que hoje poderiamos dizer de felicidade, mas naquele tempo, apenas de bem dispostos.

Ninguém era infeliz por trabalhar de sol a sol ou de comer couves todos os dias. Os domingos soltavam a alegria de viver com a sensação estranha de não ter que trabalhar.

Era a oportunidade de percorrer os caminhos em busca do diferente; amigos, bailaricos ou potenciais namoradas, para alimentar a alma rebelde.

Colecionou namoradas em muitos locais. Era brejeiro e atrevido e por onde passava deixava a sua marca vincada com alegria e boa disposição.

E não se limitou aos lugares da nossa freguesia e arredores. Ele viajava, a pé, para além do rio Zêzere, trepando montes e vales onde soubesse haver moças e bailes com quem se pudesse divertir.

Onde quer que aparecesse incutia alegria e boa disposição aos circunstantes.

Certo dia viajou, percorrendo a pé montes e vales, até à Varzea, terra longinqua para lá do rio Zêzere, onde conheceu uma jovem rapariga por quem sentiu atração.

Regressado a casa decide escrever-lhe  a tradicional carta  a pedir namoro.

A Moça, hoje seguramente respeitável senhora de cerca de 70 anos, respondeu-lhe   nos seguintes termos de forma objectiva lúcida e pragmática. O Romeu ainda hoje consegue recitar a carta sem falhar uma vírgula, porque pouco habituado a “tampas” lhe deixou marcas de macho rejeitado:

“Sr Romeu

Antes de mais apresento-lhe os meus cumprimentos.

Limito-me a escrever-lhe o que por falta de oportunidade não tinha conseguido ainda, como era meu dever.

Surgiu-me hoje o dia porém.

Lamenta-se por ser pobre. Pobre não é defeito, pois eu também não sou rica, como cita.

Devo dizer-lhe que na data presente só poderei contar comigo, mas com esperanças de um dia possuir alguma coisa, mas não o suficiente para me considerar rica. Como pobre não ambiciono riqueza ainda que se a possuisse manteria os bons sentimentos.

Da sua parte unicamente sei que é descendente de boas famílias mas um tanto ou quanto leviano, coisa própria do homem ou antes dos rapazes de hoje.

Agradeço desde já a sua oferta o que desde já lhe digo que entre nós nada existe, isto é, pois namorar ainda não penso em tal. Considero-me ainda nova para ocupar esses lugares e namoro para passar tempo, também não quero. Estou numa situação que muito aprecio, razão porque quero gozar dela mais algum tempo.

Por último desejo que seja muito feliz nas suas aventuras tanto o quanto desejar.

Subscreve-se

Maria do Céu

Várzea, 28/1/1960”

publicado por carifas às 22:46

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