Quarta-feira, 7 de Setembro de 2011

AVENTURA NAS ESTERCADAS

 

 

 

A natureza humana exercita sentimentos, emoções e sensações que lhe são intrínsecas,  não tabeladas em escalas de valores como um produto qualquer.

Teria 8 ou 9 anos , a viver naturalmente em casa dos meus pais no Fundo da Rua, com a filosofia dos naturais, na fase de aprendizagem própria desta idade, assimilando hábitos e costumes, transmitidos de forma quase genética,

Ainda hoje não consigo lembrar-me de melhor sensação que a vivida nesta aventura. Nem de quando fui a primeira vez a um concerto, ao cinema ou viajar de avião.

Aqui, neste local, a natureza parecia desenvolver-se de forma desordenada, onde cada àrvore empurra outra como  a querer garantir o seu próprio espaço. A vegetação mais forte asfixia a mais fraca, entrelaçando-a.

Esta época ainda era rica de fauna selvagem, sobretudo de aves que caçávamos facilmente com pescórcias, armadilhadas com agúdias ou lagartas dos troncos do milho, até de aves de maior porte, como os Corvos e os Milhafres, este ave de rapina.

Movido pelas pragas ao Milhafre, que ouvia à minha mãe e vizinhas, pelos assaltos que este fazia às suas capoeiras rapinando pintos à ninhada, resolvi fazer justiça pelas minhas próprias mãos provocando o extermínio do maldito Milhafre.

Saltei o ribeiro através de um túnel  formado por silvas e canas, aberto em local onde os muros de pedra distam cerca de um metro entre si, com uma profundidade de outro metro. Esta abertura, parecendo natural, formou-se pela erosão provocada pela passagem de pessoas que, ou iam caçar ou apanhar fruta em àrvores há muito abandonadas que sobreviviam  no meio da vegetação que as envolvia, como  selva cerrada. Também por ali se escapavam os javalis que lá encontram refúgio seguro e poderem visitar os milharais que se cultivam deste lado do ribeiro.

Entrar por esta passagem provocou-me uma forte sensação de aventura, incutindo medos e alusões a mistérios que a dificuldade de movimentação e os muitos indícios de existência de vida selvagem ajuda a construir, reforçado com o sentimento de invasão de propriedade alheia, embora ciente que os donos não me poderiam observar da sua casa que, lá do alto, dominava a quinta em toda a sua extenção, embora a densa vegetação não permitisse observar o interior daquele espaço.

Avancei com grande dificuldade, incomodado pelo constante agarrar das silvas à minha roupa. À medida que avançava mais para o interior aumentava-se-me a curiosidade do desconhecido e obtinha o sentimento do corajoso que quer culminar a aventura com um acto de bravura. Se me vinha alguma sensação de medo, rápidamente projectava na minha mente à zona circundante, que conhecia bem e que por estar tão próxima, depressa alcançaria. Porém, logo ficava arrependido de recorrer a este estratagema para aliviar os medos, porque perdia nesses momentos o espirito de guerreiro de que estava possuido e que só voltava a recuperar quando me tornava a assustar com o barulho provocado por algum insecto, cobra ou pássaro.

A meio do percurso parei para me concentrar e avaliar a situação, não fosse preciso modificar a estratégia da acção.

Olhei em redor e senti um calafrio, quando me apercebi do silêncio que me envolvia e que não notara antes por causa do restolhar que eu provocava ao avançar, afastando vegetação e os ramos das àrvores. Fiquei imóvel algum tempo  até que o Milhafre que nidificava num pinheiro próximo, o visitador habitual das capoeiras da minha mãe, deu sinal da minha presença. Apesar de sinistro, senti-me aliviado pela familiaridade do som.

Decidi então avançar até ao pinheiro onde o Milhafre tinha o seu ninho, afinal o local do objectivo da minha missão.

Já junto do enorme pinheiro que o albergava olhei para cima e tive a sensação que a sua ponta tocava o céu. Os primeiros ramos ficavam a uma altura que eu não conseguia alcançar. Lembrei-me da utilidade que eu escada me daria, mas logo pensei que não seria justo utilizá-la facilitando as coisas. Bom mesmo era conseguir trepar com a força dos braços e das pernas até ao primeiro ramo e a partir daí escadear o pinheiro até ao topo.

Esfreguei as mãos, voltei a olhar para cima e propus-me abraçar o pinheiro. Não tinha porém previsto a inesperada impossibilidade de o abraçar pois era demasiado largo para os meus pequenos braços. Senti nesse momento um misto de tristeza e de alegria disfarçada. Afinal não ia ser por minha culpa que não atacaria o Milhafre. Ele estava no pinheiro errado.

Obrigado a desistir da exterminação do Milhafre, regressei a casa. Contudo, vinha feliz e com sentimento de vaidade por reconher-me a coragem que tivera em pensar levar a cabo tamanha façanha.

Os pobres pintainhos continuariam ainda a correr risco de vida.

Ccarifas

publicado por carifas às 20:32

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