Sábado, 19 de Fevereiro de 2011

O MEU TIO PORRAS

Manuel Nunes, o Porras, Zé dos calos ou mais genéricamente Manuel Carifas era uma figura peculiar que marcou a minha juventude. Figura simpática e popular, era o dono da taberna situada junto à igreja de Paio Mendes.

Do género rezingão, fazia contudo transparecer uma cordialidade pouco comum ao homem analfabeto e sofredor de grave doença crónica de pele.

A sua figura e a forma como se deslocava, devido à proliferação de calos nos pés, provocavam ditos jocosos a quem o via deslocar-se, sem que deixasse de ser respeitado. Não raras vezes se via o ti Manél sentado à porta da taberna, descalço, a desbastar, com a mesma navalha com que cortava a bucha, os malditos calos que o atormentavam.

O seu maior martírio era, porém, o percurso entre a sua casa, no Fundo da Rua e a taberna, sobretudo para conseguir subir a íngreme ladeira que o obrigava, por vezes a ir com as mãos ao chão devido à grande inclinação desta.

Todos os dias pelo sol posto, lá subia ele pela terceira vez a ladeira, para abrir as portas ao pessoal que largava o trabalho e ali parava habitualmente para beber. Embora o seu vinho nem sempre fosse do melhor, não havia outra taberna próxima e lá lho iam consumindo, que no tarde apresentava sempre um “pico”, como lhe chamavam. Se alguém lho referia, respondia: se não gostas, não bebas, que eu acho-o bom. E para provar a sua qualidade, emparceirava com cada um, a quem pagava também a sua rodada.

O sacristão que se deslocava cronométricamente à igreja três vezes por dia para tocar os sinais, era porventura o que mais compartilhava as suas lamentações, já que este não deixava nunca, de cada vez, de ir lá beber uma selha de vinho. Era tal a sua regularidade que, logo que se houvia a última badalada, o ti Manél começava logo a preparar-lhe o copo. Era o único freguês que aparecia, na maior parte dos dias pela manhã e pela hora do meio dia. Por isso fazia questão de estar sempre presente porque era freguês de considerar.

Quando pelas dez horas da noite era obrigado a fechar, pegava na lanterna a petróleo e não raras vezes cambaleando, lá seguia ladeira abaixo à procura das couves que a mulher mantinha ao lume na panela de ferro.

A meio do caminho cruzava-se sempre com o irmão Joaquim que vinha igualmente da sua taberna no Salão de Cima, a caminho de casa. Era uma situação curiosa. Enquanto ele se deslocava para a sua casa  próxima da taberna do irmão, este deslocava-se para a sua, próxima da taberna dele. Dir-se-ia que o destino, por capricho de heranças, providenciou que os irmãos se cruzassem todos os dias àquela hora.

Anos e anos seguidos neste encontro diário a horas em que o cansaço era já manifesto e muitas vezes a cabeça toldada pelo vinho ingerido.  Cruzavam-se cumprimentando-se apenas com um ; Olá compadre!. Era assim que se tratavam. O Clarão da luz das suas lanternas aproximava-se, fundia-se e voltava a separar-se. Qualquer comentário era feito em movimento, por vezes já de costas a caminho das suas casas. Só algum acontecimento marcante ou troca de opiniões em qualquer negócio os fazia parar.                                              

A sua mulher, a tia Augusta, era uma pessoa circunspecta, pouco cordata. Constratava com o seu feitio bonacheirão e dado ao amoroso. Esperava-o sempre com cara de pau, sabendo de antemão que este já viria com um copito a mais. É sempre a mesma coisa, dizia-lhe, não há um dia que não venhas entornado. E depois a sopa vai para os porcos.

Mais do que a sopa, apetecia-lhe chegar a casa para poder sentar-se ao lume e descalçar-se, aliviando as dores nos pés.

No dia seguinte, ao sol nado,  já o Ti Manél, amparado ao sacho que o acompanhava sempre, servindo de bangala, tinha percorrido novamente o caminho para Paio Mendes para tomar o seu mata-bicho, servir o sacristão e mais alguém que aparecesse.

Tinha fama de forreta mas não era sovina. Gostava de oferecer um copo a um amigo. E se considerava a ocasião especial ou tinha especial deferência pela visita, convidava-o mesmo para a adega, como sinal de consideração, fugindo ao ambiente da taberna, para evitar o constragimento de pagar o vinho que se bebia. 

No verão de 1964, aquando do cumprimento do meu serviço militar, fui visitá-lo acompanhado por um colega, natural do norte, logo desconhecido na terra. Por consideração pela insólita visita, convidou-nos para a adega. Ali chegados pôs à nossa disposição o barril para que bebessemos o que nos apetecesse. Ele sentou-se numa pequena dorna virada para baixo porque os calos não lhe permitiam estar de pé muito tempo e seriamos nós a encher os copos. Pouco habituados a beber sem qualquer alimento, decidi correr à taberna e trazer dois copos de tremoços num prato de alumínio que a minha prima Nelita me serviu. Cada copo de tremoços custava, naquele  tempo, um tostão. Assim voltámos a beber mais um copo ou dois.

Acabada a visita e quando nos despediamos à porta da adega, o ti Manél virou-se para mim e disse: Oh! Carrrlos (ele carregava nos erres) olha que o vinho que bebeste e o teu amigo e mais o que te apetecer é por minha conta, mas quanto aos dois tostões de tremoços passa ali pela taberna e faz contas com a tua prrima.

Recordo ainda um dos momentos de maior felicidade que vivi quando teria 9 ou 10 anos de idade e ele me desafiou para ir com o seu burro ao ferrador, a Besteiras. Quase não dormi na noite anterior ao dia combinado para esta façanha. Quis o acaso que tivesse achado umas esporas ferrugentas que levei escondidas para utilizar logo que estivesse fora do alcance da sua vista. Com o burro encilhado e as recomendações dos cuidados a ter, lá arranquei serenamente até sentir que podia finalmente pôr as esporas e fazer voar o burro em corrida desenfreada. Ia eufórico, porque  estava a viver a aventura que imaginara nos sonhos da noite anterior. Até que despertei do sonho que estava a viver. Tinha chovido e no percurso, junto à traseira da casa do José Gaspar havia um grande lamaçal com água que assustou o burro e o fez parar repentinamente fazendo uma enorme derrapagem seguida de queda e me projectou por cima da sua cabeça para um grande banho de lama. Encharcados, eu e o burro, que consegui voltar a montar quando este ainda se tentava levantar, prossegui a viagem com novos encitamentos e esporadas que provocaram no burro tal descontrolo que resolveu sair do caminho e meter-se na vinha do Joaquim da Serrada como louco desvairado. Não fora os homens que andavam a trabalhar na vinha conseguirem refrear a besta e acalmá-la e não sei onde teria ido parar. Finalmente resolvi então seguir em marcha moderada e lá cheguei ao ferrador, que se surpreeendeu ao ver o burro todo suado e sujo de lama.

Recordo com saudade a sua figura simpática que deixou o vazio dos que, por serem marcantes, são insubstituíveis.

Ccarifas

publicado por carifas às 20:45

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