Terça-feira, 15 de Janeiro de 2008

MANIFESTO - Um tempo atrás dos nossos tempos

 

 

Todos os dias tinham manhãs. As tardes eram lógicas consequências que antecediam o anoitecer.

A madrugada alvorecia com movimentos costumeiros que se repetiam em hábitos normalizados.

Começava um novo dia, melancolicamente aceite como destino inevitável.

Só acasos despertavam o estúpido acordar.

Partia o Manél com a junta de bois, o Zé com a carroça arrastada pela mula, o Toino com o burro encilhado, sem dizerem um até logo, esperando ganhar o tempo que não ganhavam.

Doses de dias seguidos servidos às suas vidas, acrescentavam-lhe apenas idade.

Adrenalina estagnada, só elevava valores na desgraça própria ou alheia.

Retornos cansados, refúgios em bebedeira, alegrias inconscientes, brutalizavam a noite em sonos precoces, sem dizerem boa noite.

O viver, de comer e de beber, era a meca da peregrinação das suas vidas, crendo felizes os gordos e infelizes os magros.

Tapetes de alcatrão à porta impediam a existência de estrumeiras, que recordavam, nostálgicos.

Hábitos grotescos de casas de banho, provocavam raquitismos no amanho do quintal.

A sala de visitas era na adega.

Vizinho nunca estava longe de mais.

O muito e o pouco era estupidamente igual.

Salivavam melhor, maldizendo.

A felicidade era parceira da ignorância.

 

Ccarifas

Paio Mendes/Ferreira do Zêzere

publicado por carifas às 10:46

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4 comentários:
De Carlos Sousa a 17 de Janeiro de 2008 às 17:36
Olá Padrinho!
Venho aqui, não para comentar este ultimo post, mas para marcar a minha presença neste blogue.
Sou um leitor assiduo, aliás este blogue já faz parte daquelas páginas que nos habituamos a ler diáriamente.
Acho os textos espectaculares e criam em mim algum imaginário... de como seriam as coisas "antigamente", porque embora não seja um "puto novo", muitas delas eu não cheguei a viver.
Um abraço e continua com estes posts porque tambem acho que enquanto es lemos nos esquecemos desta correria diária!! Às vezes nem sei para quê!!!
De M. a 16 de Janeiro de 2008 às 09:52
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.....Muda-se tanto e tanto e tanto....Mas....será que muda mesmo?!Será que foi assim tão atrás?!
Lendo com atenção, será que não há coisas tão estranhamente iguais nos tempos de hoje?!
De carifas a 17 de Janeiro de 2008 às 11:48
Totalmente de acordo com o seu comentário. Na realidade, ainda hoje se sentem os efeitos desta herança de mentalidades, que não desaparecem de uma para geração para a seguinte. Tenhamos esperança na juventude actual, que se afirma neste novo mundo, apesar das carências de alguns principios que a minha geração ainda reclama.
De M. a 17 de Janeiro de 2008 às 14:09
Herança de mentalidades? "Olhe que não, olhe que não...." Brincadeiras á parte, a juventude actual usufrui de uma herança envenenada.As mentalidades vão mudando realmente ( para melhor, para pior?!) mas o veneno é lançada sem se dar conta e muitas vezes sem intenção. Talvez a esta geração falte as dificuladades dos tempos de "atrás".Talvez a sua geração por ter passado por elas, queira dar aos seus descendentes tudo o que de melhor conseguir....os telemoveis, os brinquedos tão cheios de coisa nenhuma, os quartos com computador e jogos e tudo, tudo sempre a cair no exagero. E subtilmente , não estaremos a incutir o sentimento de posse superior aos outros?Se ele tem eu também tenho de ter....acho que as mentalidades de agora vivem disso....e hoje cada vez mais do que ontém,anteontem, a ano passado, o século passado, vai-se sobrevivendo, não vidvendo. e como alguém já disse: "A felicidade era ( é, acrecento eu) parceira da ignorância"

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