Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008

O “CHOFER”

Agora com 69 anos de idade, Ivo, ou Chofer, como é conhecido, goza a reforma nas imediações do seu habitat actual, na Pontinha, depois de um percurso de vida atribulado com experiências profissionais em áreas que foram, entre outras, serralheiro, soldador, feiras populares, carris ou distribuidor de electrodomésticos.

Figura típica Lisboeta, nascido num dos pátios, já desaparecidos, do Campo Grande na década de 30 do século passado, viveu a pobreza e enfrentou as naturais carências da época  com a mesma naturalidade e como se destino traçado fosse e que hoje descreve movido pela nostalgia daqueles tempos.

Figura inconfundível, com cerca de metro e meio de altura, voz sonante e porte galhardo de quem não tem complexos, exterioriza a experiência das suas  vivências aprendidas na escola malandra das gerações nascidas no campo grande, depois atiradas para bairros sociais limitrofes com o avanço da urbanização da cidade naquela zona, composta até aí por quintas e pátios.

De entre as muitas histórias que ouvi dele, umas, fruto da ratice que aprendeu naquele ambiente rico de carências e hostilidades, outras de carácter humano que reflectem essas duas componentes, há esta que vos conto e que acho deliciosa:

         A MARMITa

 Ivo, frequentou a Escola Primária do Campo Grande num edificio onde se localizava também a esquadra da Polícia.

Deixemo-lo, porém, contar a história na primeira pessoa:

“O meu professor era deficiente motor. Arrastava uma perna suportado por uma bengala. Albergava-se numa taberna próxima que lhe fornecia a alimentação e a dormida.

Devido à sua dificuldade de locomoção, todos os dias mobilizava um aluno, escolhido ao acaso, para se deslocar ali para lhe trazer o almoço.

Certo dia, coube-me executar esta tarefa.

E lá fui eu, com espirito de missão fazer o recado ordenado pelo professor.

Ali chegado dirigi-me ao taberneiro e solicitei o almoço do sr. Professor.

Eu era pequenino, quase do tamanho da marmita, que era redonda, com dois patamares sobrepostos, um para a sopa e outro para o prato de peixe ou carne, com  tampas de enroscar e uma asa para o transporte. Quando me deslocava já em direcção à Escola,  tive uma tentação. Espreitar o que ia dentro da marmita.

Parei, pus a marmita no chão e desenrosquei a tampa. Era  caldo verde  e bife com batatas fritas com ovo a cavalo. Aquele cheirinho quase me fez desmaiar. Andava sempre com as “peles vazias” e aquilo foi  a maior tentação que alguma vez tivera.

Era irresistivel. Mudei de rumo e dirigi-me para o pinhal da Musgueira.

Fiz ali o maior e melhor piquenique que alguma vez imaginara. Deliciado e confortado com tamanho banquete resolvi enterrar a marmita,  digerir o manjar e voltar para casa, ignorando a Escola.

No dia seguinte, de manhã, a minha estranha recusa em seguir para a Escola obrigou a minha mãe a levar-me lá e entregar-me ao professor.

O professor esperava-me para se  vingar. Fechou a porta por dentro e perseguiu-me por entre as carteiras da sala, com grande dificuldade, até eu me dicidir entregar ao inevitável.

Bateu-me até  saciar a sua raiva.

Fiquei revoltado. Porque não teria eu, pensei, tanto direito quanto ele a um bife com batatas fritas.

 Idealizei a minha vingança.

Ele, tinha o hábito de  ir sentar-se ao fim da tarde, depois das aulas, num banco do jardim do Campo Grande, fazendo horas para o jantar.

Eu era uma espécie de Guilherme Tell da fisga. Esperei-o, num fim de tarde, escondido nuns arbustos com a fisga carregada com um calhau, até que ele se sentasse no banco habitual.

Acertei em cheio. O homem gritou e saltou com as mãos na cabeça rachada. Nunca veio a saber quem o vitimou. Senti-me vingado da tareia que levara.”

Mais tarde, o taberneiro, já sabedor do autor da proeza aliciou-me com 5 escudos para recuperar a marmita, que desenterrei e lhe devolvi. Com 5 escudos no bolso, senti-me um vencedor.

 

 

publicado por carifas às 09:31

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