Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2008

COMO ERA ..................1940

Retrato de uma família

Começou naquele dia o tempo de inverno, embora não tivesse chegado ainda a sua época.

A noite envolvera já a encosta que suportava a velha casa com tecto de telha vam e com duas paredes de madeira que deixavam entrar pelas frestas o vento frio que soprava bastante forte. A casa tinha apenas uma divisória num dos cantos e no oposto fazia-se o fogo numa lareira sem chaminé, com a lenha que os gaiatos tinha apanhado nos pinhais circundantes. Ao lume estava uma panela de ferro dependurada por um arame que pendia de uma viga do tecto, cozendo couves com batatas e um pedaço de toucinho. O fumo fazia remoinhos espalhando-se por toda a casa.

A chuva intensificava-se e a escorrência das águas da encosta começou a entrar pelas fendas abertas nas tábuas apodrecidas.

O homem da casa ainda não chegara. Ainda não era tarde. Trabalhava de sol a sol e passava sempre pela taberna na esperança de beber um copo que um amigo lhe pagasse ou o taberneiro lhe fiasse.

Para conter a entrada da água a mãe disse aos gaiatos que fossem às traseiras com uma sachola tentar desviá-las, senão o lume podia apagar-se e as enxergas onde dormiam podiam ficar encharcadas. Descalços, lá foram, brincando, na expectativa de enganarem os cursos da água. E conseguiram-no abrindo dois regos em forma de V invertido, cada um passando à direita e à esquerda da casa.

Voltaram para dentro da casa encharcados e foram aquecer-se junto da fogueira onde ainda fervia a panela de ferro. O mais velho, encostado à parede, teve que afastar-se dela porque já escorria água. Tiritavam de frio ansiando pela malga de couves que a mãe iria servir quando acabassem de cozer. Desde que chegaram da escola que ainda não tinham comido nada.

A mãe meteu a colher de pau dentro da panela e mexeu as couves esmagando um talo entre os dedos para saber se já estavam cozidas.

Do lado do alpendre, virado a nascente e com vista para o ribeiro que passava ao fundo da ravina, ouviu-se o barulho da enxada do pai a bater no chão. Tinha chegado e estava a arrumá-la com a saca de serapilheira que trazia às costas. Lá dentro fez-se silêncio e aguardou-se a sua entrada. Até saber-se se ele viria bêbado ninguém ousou falar.

- Boa noite!

 Em coro, os filhos responderam : - Adeus meu pai. Dê-me a sua benção se faz favor.

- Deus vos abençoe.

A mulher atenta ao ferver da panela nem se virou.

Afinal hoje, ou porque o patrão deu pouca pinga ou porque não foi bem sucedido na taberna, estava sóbrio. Até a mãe ficou à vontade para falar: Oh! Homem, chega-te aqui ao lume que o tempo está mau e as couves estão quase cozidas.

Dobrado e com ar fatigado foi sentar-se no lado direito da lareira num tronco de madeira de eucalipto, que era o lugar habitual dele. Quando se sentou, peidou-se e todos baixaram a cabeça para retrair emoções. Aproveitou para raspar das calças a terra que traziam agarrada quase até aos joelhos, com um graveto que tirou do canto da lenha.

A mãe foi buscar as malgas de aluminio já enrrugadas pelo muito uso, para servir a sopa, meio curvada pelas dores nas costas que a posição que tinha enquanto esteve sentada ao lume lhe provocara, percorreu o espaço da lareira à cantareira com os pés descalços em cima da terra batida já humedecida pela água das chuvas que desobedecia aos regos abertos lá fora pelos filhos. Quando voltou, sentou-se no meio deles com uma concha de alumínio enegrecida e encheu-as  servindo primeiro o marido, juntando-lhe o pequeno naco de toucinho que a ele devia fortalecer para ter forças para ir trabalhar no dia seguinte.  Começaram a comer em silêncio. Quando o pai levava o toucinho à boca salivavam para a colher em comunhão de prazer por aquele gosto que não era preciso provar para saber o quanto era bom.

A mãe foi depois buscar uma tijela de azeitonas retalhadas, das que tinha apanhado aqui e acolá, nos caminhos por onde passava, que comeram com uma fatia de broa de milho já bastante duro, cozido no domingo anterior.

Acabaram a refeição confortados com aquela sopa quentinha e as azeitonas com broa e pelo conforto daquele cheirinho a toucinho que o pai comeu e que  partilharam imaginariamente com a noção de que ele (com a sua jorna) era a via para que a  mãe pudesse ir à loja ao fim de cada semana levantar  as massas e  o arroz que comiam com tanto prazer.

Acabaram de comer e antecipavam já o prazer da próxima refeição que ainda vinha longe.

Lá fora, a chuva e o vento intensificavam-se e adivinhava-se a invasão das águas em toda a casa. Foi preciso arrastar a enxerga das raparigas para a desviar de uma beira que começara a cair.

Voltaram novamente ao lume acrescentando alguns paus de ramos de pinheiro para atear a fogueira.

-Hoje, diz o pai, houvi dizer ao patrão que a guerra lá no estrangeiro está brava. Espero que não chegue cá.

Ao ouvirem isto os quatro rapazes e as três raparigas ficaram a olhar para o pai com a expectativa que este dissesse mais sobre aquilo da guerra.

- Amanhã tenho que levantar-me um pouco mais cedo para ir trabalhar para a Quinta do Além. Levo pelo menos uma hora de caminho. Vamos lá ver se faço pelo menos um quartel. Com esta chuva....

-Oh! homem se não fazes o dia, vou ter de mandar apontar no rol o avio prá semana.

- O tempo é que manda! respondeu.

- A conta lá na loja está a crescer e “ele” já me olha de esguelha. Ainda se alguém falasse à mais velha, nem que fosse para sachar ou apanhar azeitona. Sempre ajudava.

 Amanhã vais levar o talêgo contigo.Vais pra longe e os cachopos vão prá escola. As mais velhas vão sachar-me as couves que puses-te ao pé do ribeiro e acartar o esterco. Ainda assim, com este tempo, se calhar não ficas por lá todo o dia.

-Olha e tu não te esqueças de ir amanhã ao mato para fazer a cama aos porcos e pôr aqui no terreiro da entrada.

 Os cachópos quando vierem da escola que vão armar as pescórcias, porque andam por aí os tordos e pode ser que caia algum, que daria uma boa assadura.

Entretanto a cozinha já estava inundada por fios de água que atravessavam a casa e  saiam no lado oposto em direcção à ribeira a uma velocidade obediente à inclinação da encosta.

– Vamos dormir, disse o pai. Já devem ser nove horas.

Todos se levantaram e cada um foi para a respectiva enxerga. Eram três. Uma para 2  rapazes e uma para as três raparigas. O mais velho dormia num buraco escavado na barreira que servia de parede às traseiras da casa depois do apodrecimento das tábuas que antes separavam a casa da barreira. Dessas tábuas restava a metade que pendia do telhado. Dentro do buraco escavado fora aberto um rego lateral para escorrência das águas infiltradas. O pai e a mãe tinham o previlégio de dormir numa cama de ferro, herdada dos avós, com colchão guarnecido com camisas de milho, na única divisão da casa.

A mãe afastou os tições para os lados com a tenaz, para que o lume se apagasse e foi também deitar-se.

O conforto do calor dos corpos em cada cama era o prazer de cada um para transitar para o dia seguinte, naquele ambiente frio e húmido, hoje acrescido dos sons do vento e da chuva.

No dia seguinte o pai levantou-se de madrugada, enfiou a saca de serapilheira na cabeça e colocou as enxadas nos ombros, a rasa e a de pontas, e lá seguiu caminho. Ainda chovia e a noite estava escura como breu. Tinha pouca esperança de pegar no trabalho. Adivinhava-se, daqui prá frente, até acabar a época das chuvas, muitos dias de costas ao alto.

Os rapazes e a rapariga mais nova, ainda em idade escolar, seguiram para a escola, com os livros enfiados em pequenos sacos de serapilheira que a mãe tinha feito e com um pequeno talêgo, feito igualmente pela mãe, onde levavam uma fatia de pão de milho com um pedaço de queijo, feito do leite das duas duas cabras que tinham e que eram obrigados a apascentar todos os dias quando regressavam da escola.

Antes de sairem comeram as sopas de pão com o almécere que sobrou do leite com que se fizeram os queijos no dia anterior.

Lá seguiram descalços, ladeira acima por entre a água que corria ainda em abundância, para atingir a estrada que levava à escola, que ainda ficava longe. Sem chapéus ou outra protecção para a chuva que ainda caía, agora sem a intensidade da que caiu de noite, chegaram à escola molhados mas sem frio pelo esforço da caminhada.

A mãe e as duas filhas mais velhas carregaram à cabeça, cada uma, um cesto de estrume retirado do curral do porco, levaram a única sachola que havia e lá seguiram para a pequena horta, no fundo do vale, junto ao ribeiro, para o espalhar e sachar as couves que estavam cheias de erva. Quando acabassem passariam para o outro lado do ribeiro para raspar o mato que era preciso para fazer nova cama ao porco e espalhar no terreiro de entrada para evitar o lamaçal. O pai tinha obtido consentimento do dono da charneca, quando o encontrara na taberna, no domingo anterior, para a raspoila do mato.

Regressaram por volta do meio dia com um molhe de mato à cabeça, cansadas, mais pela dificuldade de subir a íngreme encosta que do esforço dos trabalhos que haviam realizado. Depois de espalharem o mato no curral dos porcos e na entrada da casa a mãe deu ordem às raparigas para descascar batatas para o almoço. Lembrou-se que das sardinhas que comprara na segunda-feira no mercado ainda “cresceram” duas que repartiriam entre as três. Seriam um excelente “conduto”, regadas com algum do pouco azeite que ainda sobrava na talha.

Tardava em chegar a época do Natal para que se fizesse a matança do porco, para voltar a haver carne na salgadeira e alguns enchidos.

Depois foi deitar aos porcos algumas cabeças de nabo que trouxera da horta e abrir a capoeira às galinhas para poderem procurar alimento.

Havia agora esperança com as raparigas, agora com corpo e idade para trabalhar que fossem lembradas para ser faladas para a apanha da azeitona. O isolamento do local ondem viviam não as tornava notadas.

Passavam-se os dias melancólicamente, repetindo-se os hábitos aprendidos, nesta inércia de pobreza sem perspectivas de serem alterados por qualquer motivo que desconheciam poder existir.

Veio o domingo, igual a tantos outros já passados. O badalar do sino na igreja para chamamento dos fiéis à missa dominical soava para eles apenas como música longínqua em local distante e inacessível para eles. Não havia preparos para vestir e calçar para poderem ir lá, como  outros faziam.

O pai levantou-se cedo e foi cavar e preparar terra para semear nabiças, conforme aconselhava o Borda-de-Água. Tinha que aproveitar o domingo para fazer estes trabalhos. Os dias da semana eram para ganhar a jorna  para ajudar no sustento da família. À tarde iria até à taberna distrair-se com os amigos e beber uns copitos.

A mãe tendeu a massa de farinha de milho e acendeu o forno para cozer o pão para a semana. Hoje haveria brindeiras recheadas com cebola e um pingo de azeite, cozidas sobre uma folha de couve.

À tarde, depois do pai ir para a taberna a mãe foi sentar-se numa pedra encostada ao tronco de uma oliveira onde ainda batia o sol, com o cesto da costura, para remendar roupas e pôr fundilhos numa calças.

Os miúdos pediram à mãe para irem até lá acima à estrada. Queriam ver o que passava e até algum carro que pudesse aparecer. Tinham houvido dizer na escola que no domingo amterior passara lá um. A rapariga mais velha ficou a ajudar a mãe e à espera que ela lhe catasse as lêndeas da cabeça.

CCARIFAS

Paio Mendes/Ferreira do Zêzere

publicado por carifas às 12:02

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