Terça-feira, 11 de Dezembro de 2007

ABANAR OS TANCHÕES

Quando nos aproximamos, nesta fase da vida, ao período a que convencionaram chamar de terceira idade, tendemos também a fazer exercícios de reflexão, passando em revista o que foi a nossa vida até aqui, recordando e gostando mesmo de partilhar as incidências vividas nos acontecimentos mais marcantes que nos aconteceram nos anos antecedentes.


Todos as temos e quase todos as guardamos na nossa intimidade. Partilhá-lhas é oferecer o conhecimento dessas experiências que poderão enriquecer, moldar ou prevenir atitudes e comportamentos.


Sou produto de uma geração pobre, muito pobre, que agarrou a vida por pequenas e ocasionais oportunidades, mas sempre com a força e determinação de quem assimilou cedo que trabalhar, cumprindo obrigações é a solução para a sobrevivência, com dignidade.

A formação base para esse percurso era, é, e será sempre o estudo que a Escola nos proporciona.

O meu pai nascido em 1899 só frequentou a escola por seis meses, porque foi obrigado a trocar os livros pela enxada, ficando analfabeto toda a vida. A minha mãe fez a apenas a 2ª classe, mas sabia, apesar disso, ler e escrever correctamente.

No meu tempo as mentalidades já estavam um pouco corrigidas, com normas de obrigatoriedade para a frequência dos quatro anos do ensino elementar.
Porém, o ensino ainda era ministrado por alguns professores de então com palmatórias e varapaus em procedimentos de regime de escravatura, que antes já tinham provocado o abandono de muitos.

Ainda hoje é possível ouvir os poucos velhotes sobrevivos que ainda terão ido à Escola com o Prof. Camílio, de Paio Mendes, descrever a violência que utilizava nos seus processos de ensino.

Se tivesse que fazer uma auto avaliação do meu perfil de aluno, diria que era um aluno normal, sem manifestações de especiais apetências ou argúcias, que ia resolvendo as questões à força da dedicação que entendia dever ter.

Na 4ª Classe, tive como mestre o prof. Mineiro, oriundo de Torres Novas. Todos os meus companheiros de então se recordam dele, certamente sem saudades.
Fui vítima de agressões deste homem que me provocaram mazelas e terror à Escola, a que só o meu pai conseguiu por cobro pela sua coragem e determinação em vencer as barreiras que a figura de um prof. Primário representava numa terra de interior como a nossa.

Era vulgar, como me aconteceu a mim, fazer a leitura de um texto em que ele se colocava ao nosso lado com uma cana da Índia e por cada erro de leitura levávamos uma vergastada nas costas. Ficávamos com as costas negras, marcadas de tantas pancadas quantos os erros que déssemos.

Um dia, fui chamado ao quadro para resolver as áreas de diversas figuras geométricas que ele lá desenhara. A simples chamada era aterradora. Era como se fossemos para o patíbulo. Lá fui e encontrei as soluções certas para as primeiras três ou quatro figuras que ele desenhara. Na última errei a solução. Como um torpedo humano saltou da secretária e agrediu-me com um violento pontapé na coxa. Lembro-me que ele tinha uns sapatos com biqueira fina. Fiquei com a perna negra e a coxear tive dificuldade em chegar a casa. Era de tal modo grave que a minha mãe me levou à Frazoeira para ser observado pelo Dr. Real.

À noite quando o meu pai regressou do trabalho e posto ao corrente do que se passara, tomou a decisão de ir no dia seguinte falar com o professor. Tive a agradável sensação de protecção e de carinho com esta atitude do meu pai. Muitos entenderiam que a autoridade do professor era inquestionável. Talvez por isto e não só, o meu pai foi desde sempre o meu único ídolo.

No dia seguinte fui para a Escola pela mão do meu pai. Chegados à porta da sala de aula, o meu pai mandou chamar o prof. por um colega que ia a passar, sem que eu lhe largasse a mão.

Quando o prof. aparece à porta, o meu pai no seu estilo de homem sem medos, atira-lhe:

- OUÇA CÁ!. EU ALGUMA VEZ LHE ABANEI OS TANCHÕES?
Como sabem, chama-se tanchões às oliveiras novas e frágeis, em fase de crescimento, quer requerem cuidados.

Não me recordo do mais que foi dito. Lembro-me de ter tido receio do meu pai o poder agredir, porque era homem que resolvia muitas vezes as suas divergências pela força, sobretudo na sua taberna. Lembro-me, isso sim, que terminou a conversa com o aviso que iria no dia seguinte a Santarém apresentar queixa dele ao Inspector Escolar, virando-lhe as costas.

Entrei para a sala de aula afoito e descontraído como se levasse atrás de mim um batalhão de seguranças. Sabia que o meu pai repusera as coisas no seu lugar.

Nesse mesmo dia à noite, apareceram em minha casa as forças vivas da freguesia (regedor e cabo de ordens, julgo) acompanhadas do professor a apresentarem desculpas e a tentar demover o meu pai de apresentar a queixa.

Convenceram-no a desistir da queixa, com o acordo de que me prestasse explicações até final do ano escolar para que eu fizesse também o exame de admissão aos Liceus e às Escolas Técnicas.

Faltavam três meses para o final do ano. Nunca mais me bateu, mas passei o resto do tempo, até aos exames, a ser o mais sacrificado, quer na Escola quer nos trabalhos de casa, por força do contrato que fizera com o meu pai, de quem se vingou no preço que lhe cobrou, no dia em que terminei as orais, na Escola Industrial e Comercial de Tomar, sem que tivesse perdido um minuto sequer para além do horário normal das aulas na Escola.

Ainda me lembro da revolta do meu pai, quando vinhamos de Tomar, na camioneta, ao exclamar:: - Malandro, vingou-se-me na carteira..Levara-lhe Esc. 300.00, isto em 1954, que pagou sem regatear.

Dos meus companheiros, recordo-me especialmente do José Luís da Maria do Olheiro que foi igualmente um mártir, entre outros.

CCARIFAS

Paio Mendes/Ferreira do Zêzere

publicado por carifas às 19:27

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1 comentário:
De TiBéu ( Isa) a 31 de Dezembro de 2008 às 15:07
Mais termo "TANCHÕES " ben Carlos porque não começas a escrever um livro? Este blog promete- bj

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