Existem neste nosso mundo pessoas que fazem o seu percurso de vida com notoriedade e conhecimento público e outras que sendo notórias, apenas vêm o reconhecimento das suas qualidades no terreiro das suas vidas com eco apenas nos familiares e amigos.
A minha irmã, Maria Augusta dos Santos Nunes Bastos (A Tita) e o Francisco de Sousa Bastos (Chico do Grilo, como é conhecido) celebra no dia 23 de Setembro de 2011 as suas bodas de oiro, de um casamento que resistiu a todas as vicissitudes que estão implícitas ao decurso de uma vida dura e de muito trabalho, acrescida da maternidade, criação e educação dos seus filhos.
Òbviamente oriunda dos Carifas, é porventura a que melhor retrata o espírito que está subjacente à alcunha da nossa família ( alegre, brincalhão, gozão, impertinente).
Não fora a dramática perda do seu filho mais velho, o grande desgosto da sua vida que a abalou e modificou e manteria ainda a jovialidade que sempre a caracterizou.
Apesar de tudo, ainda alegre e brincalhona com a argúcia de quem, sendo inteligente, sabe brincar respeitando, com a arte pouco comun do bom senso e objectividade do seu discurso.
Generosa e amiga de toda a gente, exerce o saudável hábito de ajudar a quem precisa com o prazer de fazer bem.
Na sua farta casa há sempre um prato de sopa ou um dos seus deliciosos petiscos feitos com as suas mágicas mãos de cozinheira. Sem ter tido qualquer formação na arte de cozinhar, ela transforma qualquer alimento em cozinhado que faria inveja a qualquer chefe de cozinha.
Tem agora o previlégio de ter duas lindas netas, a Joana e a Carolina, que vieram colmatar a sua grande frustação de não ter tido uma filha e um neto, o Miguel, elas, filhas do Carlos Miguel e da Silvia, e o Miguel, filho do Zézito e da Isabel. Orgulha-se dos seus filhos por serem homens exemplares e de sucesso.
Prefere andar a pé em detrimento do automóvel, que é um luxo execrável que rouba o prazer de exercer a função de locomoção natural do ser humano que somos. Excurções de terceira idade são manifestções de gente que não sabe distinguir entre o ter e o saber dos prazeres da vida. A melhor excursão que lhe podem proporcionar é percorrer a pé a distância entre a Cagida e Paio Mendes ou qualquer outro percurso que desafie o seu marchar rápido.
Divide, dia a dia, as suas múltiplas tarefas, entre as fainas agrícolas o tratamento de animais e a manutenção dos afazeres domésticos com energia que faz inveja aos mais jovens. Ela executa, dirige, orienta e comanda todo o universo que a rodeia.
Queremos tê-la por muitos anos na intimidade das nossas vidas, como irmã e como amiga.
Os meus parabéns e um grande beijo de amizade do mano
Ccarifas
A natureza humana exercita sentimentos, emoções e sensações que lhe são intrínsecas, não tabeladas em escalas de valores como um produto qualquer.
Teria 8 ou 9 anos , a viver naturalmente em casa dos meus pais no Fundo da Rua, com a filosofia dos naturais, na fase de aprendizagem própria desta idade, assimilando hábitos e costumes, transmitidos de forma quase genética,
Ainda hoje não consigo lembrar-me de melhor sensação que a vivida nesta aventura. Nem de quando fui a primeira vez a um concerto, ao cinema ou viajar de avião.
Aqui, neste local, a natureza parecia desenvolver-se de forma desordenada, onde cada àrvore empurra outra como a querer garantir o seu próprio espaço. A vegetação mais forte asfixia a mais fraca, entrelaçando-a.
Esta época ainda era rica de fauna selvagem, sobretudo de aves que caçávamos facilmente com pescórcias, armadilhadas com agúdias ou lagartas dos troncos do milho, até de aves de maior porte, como os Corvos e os Milhafres, este ave de rapina.
Movido pelas pragas ao Milhafre, que ouvia à minha mãe e vizinhas, pelos assaltos que este fazia às suas capoeiras rapinando pintos à ninhada, resolvi fazer justiça pelas minhas próprias mãos provocando o extermínio do maldito Milhafre.
Saltei o ribeiro através de um túnel formado por silvas e canas, aberto em local onde os muros de pedra distam cerca de um metro entre si, com uma profundidade de outro metro. Esta abertura, parecendo natural, formou-se pela erosão provocada pela passagem de pessoas que, ou iam caçar ou apanhar fruta em àrvores há muito abandonadas que sobreviviam no meio da vegetação que as envolvia, como selva cerrada. Também por ali se escapavam os javalis que lá encontram refúgio seguro e poderem visitar os milharais que se cultivam deste lado do ribeiro.
Entrar por esta passagem provocou-me uma forte sensação de aventura, incutindo medos e alusões a mistérios que a dificuldade de movimentação e os muitos indícios de existência de vida selvagem ajuda a construir, reforçado com o sentimento de invasão de propriedade alheia, embora ciente que os donos não me poderiam observar da sua casa que, lá do alto, dominava a quinta em toda a sua extenção, embora a densa vegetação não permitisse observar o interior daquele espaço.
Avancei com grande dificuldade, incomodado pelo constante agarrar das silvas à minha roupa. À medida que avançava mais para o interior aumentava-se-me a curiosidade do desconhecido e obtinha o sentimento do corajoso que quer culminar a aventura com um acto de bravura. Se me vinha alguma sensação de medo, rápidamente projectava na minha mente à zona circundante, que conhecia bem e que por estar tão próxima, depressa alcançaria. Porém, logo ficava arrependido de recorrer a este estratagema para aliviar os medos, porque perdia nesses momentos o espirito de guerreiro de que estava possuido e que só voltava a recuperar quando me tornava a assustar com o barulho provocado por algum insecto, cobra ou pássaro.
A meio do percurso parei para me concentrar e avaliar a situação, não fosse preciso modificar a estratégia da acção.
Olhei em redor e senti um calafrio, quando me apercebi do silêncio que me envolvia e que não notara antes por causa do restolhar que eu provocava ao avançar, afastando vegetação e os ramos das àrvores. Fiquei imóvel algum tempo até que o Milhafre que nidificava num pinheiro próximo, o visitador habitual das capoeiras da minha mãe, deu sinal da minha presença. Apesar de sinistro, senti-me aliviado pela familiaridade do som.
Decidi então avançar até ao pinheiro onde o Milhafre tinha o seu ninho, afinal o local do objectivo da minha missão.
Já junto do enorme pinheiro que o albergava olhei para cima e tive a sensação que a sua ponta tocava o céu. Os primeiros ramos ficavam a uma altura que eu não conseguia alcançar. Lembrei-me da utilidade que eu escada me daria, mas logo pensei que não seria justo utilizá-la facilitando as coisas. Bom mesmo era conseguir trepar com a força dos braços e das pernas até ao primeiro ramo e a partir daí escadear o pinheiro até ao topo.
Esfreguei as mãos, voltei a olhar para cima e propus-me abraçar o pinheiro. Não tinha porém previsto a inesperada impossibilidade de o abraçar pois era demasiado largo para os meus pequenos braços. Senti nesse momento um misto de tristeza e de alegria disfarçada. Afinal não ia ser por minha culpa que não atacaria o Milhafre. Ele estava no pinheiro errado.
Obrigado a desistir da exterminação do Milhafre, regressei a casa. Contudo, vinha feliz e com sentimento de vaidade por reconher-me a coragem que tivera em pensar levar a cabo tamanha façanha.
Os pobres pintainhos continuariam ainda a correr risco de vida.
Ccarifas
Estamos no dia de S. Martinho, em 1950.
Este tinha sido um ano de farta colheita de uvas e as adegas estavam cheias, como há alguns anos se não via. Sentia-se por isso um forte apelo às tradicionais provas, na expectativa de saber se à quantidade também corresponderia a qualidade. Nada melhor que convidar os amigos para efectuar as provas tradicionais do dia de S. Martinho e saber deles a opinião sobre a “pomada” do ano, embora se saiba que essa coisa de aromas e paladares são coisas reservadas a frutas.
O Manél Alcobia, ou Manél da Teresa, como era mais conhecido, era homem de horizontes largos, pois tinha experiências de vida invulgares, pouco comuns aos seus iguais daquele tempo, como seja a sua expedição a àfrica, e ao que se diz, até terá participado na prisão do Gungunhana.
Na véspera deslocara-se à Serrada e apanhou uns quilos de castanhas e trouxe de caminho um molho de agulho para fazer o magusto que iria compartilhar com os amigos. Deu ordens à mulher para as trinchar e meter-lhe uma mão de sal da salgadeira.
A seguir ao jantar, cerca das duas horas da tarde, com a samarra pelas costas, desceu as escadas que dão acesso à adega. Ainda vinha a comer a sobremesa. Um naco de toucinho preso na mão esquerda entre o indicador e o polegar e um bocado de pão de milho preso por baixo, na mesma mão, que cortava em pedaços com a navalha na mão direita. Calmamente sentou-se no banco feito de uma tábua de pinho assente em duas pedras, nas extremidades.
Não tardou que chegasse o primeiro conviva. Era o Xico Clemente que morava ali à distância de um grito. De camisa branca, coisa rara por aqui, mas o dia era de festa, salientava-lhe ainda mais o enorme nariz avermelhado e marcado por um sinal negro. Saudou:
- Olá compadre!
- Olá compadre!
Sentou-se no mesmo banco e enquanto falavam do tempo, surgio o Zé Narciso em passo apressado, ofegante, que a subida desde a fonte é ingreme. Homem de grande porte e de falas apressadas parece ter sempre pressa em partir para outro destino, saudou:
- Santas e boas!
- Adeus oh Zé, responderam ambos.
E voltou a falar-se do tempo.
O Artur Granja que morava a meia distância entre o Manél da Teresa e o Zé Narciso, surgiu à saída da azinhaga que passa por detrás da casa do Fona. Em passo calmo e de samarra pelas costas parou antes de atravessar a estrada e procurou, abrindo ligeiramente as pernas para obter rigidez no equilibrio, colar com a língua a mortalha do cigarro de onça que vinha a fazer. Só depois de o acender com o isqueiro a petróleo, avançou em direcção ao local onde os outros se encontravam, com a pressa de quem não tem pressa nenhuma.
- Boa tarde meus senhores!
- Boa tarde!
Logo se avistou à saída da mesma azinhaga, os restantes convidados. Os irmãos Carifas, o Manél e o Joaquim que vinha ao ritmo do irmão Manél amparado com um sacho para facilitar a sua dificuldade de locomoção devido aos calos de que sofria.
- Santas e boas! disseram ambos.
- Boas tardes!
Bem, meus senhores, como já cá estão todos o melhor será atacar o postigo, senão morremos de sede.
-Já cá tarda, disse o Zé Narciso.
O Manél da Teresa agarrou na verruma e no espicho que tinha feito na véspera e tratou de começar a furar o tonel.
-Passem-me aí esse copo que isto já está a verter até ao postigo. O Zé Narciso foi mais rápido e deu-lhe o copo que rápidamente se encheu com o forte esguicho que saía do barril. Meteu-lhe o espicho para estancar a hemorragia do vinho. O Zé Narciso esvaziou o copo de uma vezada.
- Então Zé, que tal achas o vinho?
- Ora, não é com um copo que se faz uma prova. Volte a enchê-lo que já falamos. Quanto mais de resto é assim mesmo.
- Espera, que os outros também são gente. O melhor é encher a picheira para que não se babe tanto vinho.
Encheu a picheira e começou a servir os restantes compinchas. O primeiro foi o Manél Carifas, que opinou: Cá por mim bebe-se bem. Eu até não sou esquisito. Já tenho bebido pior.
O Xico Clemente que ansiava pela sua vez, foi o seguinte a beber e estalando com a língua disse: Escorrega bem. Se não azedar há-de ser todo bebido.
Passou em seguida o copo ao Artur Granja que o bebeu e, franzindo as sobrancelhas, exclamou: Bem, bem, bem, bem. Deixem passar-lhe o inverno por cima que o há-de acabar de curar.
O Joaquim Carifas, com fama de bom fabricante de vinhos, era opinião a considerar, daí que o Manél da Teresa esperava com curiosidade a sua apreciação.
- Bom, é um vinho encorpado mas a precisar de mais tempo de remanso, que o tempo e o frio tratará dele.
O Zé Narciso, teve finalmente o segundo copo que bebeu, deitando um pouco na palma da mão que esfregou até aquecer. Cheirou as mãos e disse: Tem grau para subir à cabeça.
- Oh! Pessoal, rematou o Manél da Teresa, vamos lá para fora acender o agulho e assar as castanhas para fazer boca para mais uns copos.
Todos se dirigiram para o terreiro. Foram ao monte da lenha e tiraram, cada um, um cepo, que levaram para junto do agulho, onde se sentarem.
Enquanto as castanhas assavam bebeu-se mais uma rodada. Uma que não fora trinchada rebentou com grande estrondo e na pausa que se seguiu, alguém comentou: - Já abriu a caça. Todos se riram.
Com a ponta das botas cardadas iam puxando as castanhas para fora do agulho e com as mãos já negras da descasca iam sujando e embaciando os copos.
Durante a tarde o Manél da Teresa como bom anfitrião não parava de reeencher a picheira, pois era preciso que todos fossem satisfeitos.
Pelo sol posto já com os corpos quentes, despediram-se, deixando convite para visitaren as suas adegas, ficando apenas o Xico Clemente que morava ali mesmo ao lado. Os outros seguiram ladeira abaixo, todos juntos, que o caminho era o mesmo até à fonte. Atrás deles seguia o Manél Carifas abrindo cada passo com o cuidado de parecer não querer nem desequilibrar-se nem querer tocar com os pés no chão.
Manuel Nunes, o Porras, Zé dos calos ou mais genéricamente Manuel Carifas era uma figura peculiar que marcou a minha juventude. Figura simpática e popular, era o dono da taberna situada junto à igreja de Paio Mendes.
Do género rezingão, fazia contudo transparecer uma cordialidade pouco comum ao homem analfabeto e sofredor de grave doença crónica de pele.
A sua figura e a forma como se deslocava, devido à proliferação de calos nos pés, provocavam ditos jocosos a quem o via deslocar-se, sem que deixasse de ser respeitado. Não raras vezes se via o ti Manél sentado à porta da taberna, descalço, a desbastar, com a mesma navalha com que cortava a bucha, os malditos calos que o atormentavam.
O seu maior martírio era, porém, o percurso entre a sua casa, no Fundo da Rua e a taberna, sobretudo para conseguir subir a íngreme ladeira que o obrigava, por vezes a ir com as mãos ao chão devido à grande inclinação desta.
Todos os dias pelo sol posto, lá subia ele pela terceira vez a ladeira, para abrir as portas ao pessoal que largava o trabalho e ali parava habitualmente para beber. Embora o seu vinho nem sempre fosse do melhor, não havia outra taberna próxima e lá lho iam consumindo, que no tarde apresentava sempre um “pico”, como lhe chamavam. Se alguém lho referia, respondia: se não gostas, não bebas, que eu acho-o bom. E para provar a sua qualidade, emparceirava com cada um, a quem pagava também a sua rodada.
O sacristão que se deslocava cronométricamente à igreja três vezes por dia para tocar os sinais, era porventura o que mais compartilhava as suas lamentações, já que este não deixava nunca, de cada vez, de ir lá beber uma selha de vinho. Era tal a sua regularidade que, logo que se houvia a última badalada, o ti Manél começava logo a preparar-lhe o copo. Era o único freguês que aparecia, na maior parte dos dias pela manhã e pela hora do meio dia. Por isso fazia questão de estar sempre presente porque era freguês de considerar.
Quando pelas dez horas da noite era obrigado a fechar, pegava na lanterna a petróleo e não raras vezes cambaleando, lá seguia ladeira abaixo à procura das couves que a mulher mantinha ao lume na panela de ferro.
A meio do caminho cruzava-se sempre com o irmão Joaquim que vinha igualmente da sua taberna no Salão de Cima, a caminho de casa. Era uma situação curiosa. Enquanto ele se deslocava para a sua casa próxima da taberna do irmão, este deslocava-se para a sua, próxima da taberna dele. Dir-se-ia que o destino, por capricho de heranças, providenciou que os irmãos se cruzassem todos os dias àquela hora.
Anos e anos seguidos neste encontro diário a horas em que o cansaço era já manifesto e muitas vezes a cabeça toldada pelo vinho ingerido. Cruzavam-se cumprimentando-se apenas com um ; Olá compadre!. Era assim que se tratavam. O Clarão da luz das suas lanternas aproximava-se, fundia-se e voltava a separar-se. Qualquer comentário era feito em movimento, por vezes já de costas a caminho das suas casas. Só algum acontecimento marcante ou troca de opiniões em qualquer negócio os fazia parar.
A sua mulher, a tia Augusta, era uma pessoa circunspecta, pouco cordata. Constratava com o seu feitio bonacheirão e dado ao amoroso. Esperava-o sempre com cara de pau, sabendo de antemão que este já viria com um copito a mais. É sempre a mesma coisa, dizia-lhe, não há um dia que não venhas entornado. E depois a sopa vai para os porcos.
Mais do que a sopa, apetecia-lhe chegar a casa para poder sentar-se ao lume e descalçar-se, aliviando as dores nos pés.
No dia seguinte, ao sol nado, já o Ti Manél, amparado ao sacho que o acompanhava sempre, servindo de bangala, tinha percorrido novamente o caminho para Paio Mendes para tomar o seu mata-bicho, servir o sacristão e mais alguém que aparecesse.
Tinha fama de forreta mas não era sovina. Gostava de oferecer um copo a um amigo. E se considerava a ocasião especial ou tinha especial deferência pela visita, convidava-o mesmo para a adega, como sinal de consideração, fugindo ao ambiente da taberna, para evitar o constragimento de pagar o vinho que se bebia.
No verão de 1964, aquando do cumprimento do meu serviço militar, fui visitá-lo acompanhado por um colega, natural do norte, logo desconhecido na terra. Por consideração pela insólita visita, convidou-nos para a adega. Ali chegados pôs à nossa disposição o barril para que bebessemos o que nos apetecesse. Ele sentou-se numa pequena dorna virada para baixo porque os calos não lhe permitiam estar de pé muito tempo e seriamos nós a encher os copos. Pouco habituados a beber sem qualquer alimento, decidi correr à taberna e trazer dois copos de tremoços num prato de alumínio que a minha prima Nelita me serviu. Cada copo de tremoços custava, naquele tempo, um tostão. Assim voltámos a beber mais um copo ou dois.
Acabada a visita e quando nos despediamos à porta da adega, o ti Manél virou-se para mim e disse: Oh! Carrrlos (ele carregava nos erres) olha que o vinho que bebeste e o teu amigo e mais o que te apetecer é por minha conta, mas quanto aos dois tostões de tremoços passa ali pela taberna e faz contas com a tua prrima.
Recordo ainda um dos momentos de maior felicidade que vivi quando teria 9 ou 10 anos de idade e ele me desafiou para ir com o seu burro ao ferrador, a Besteiras. Quase não dormi na noite anterior ao dia combinado para esta façanha. Quis o acaso que tivesse achado umas esporas ferrugentas que levei escondidas para utilizar logo que estivesse fora do alcance da sua vista. Com o burro encilhado e as recomendações dos cuidados a ter, lá arranquei serenamente até sentir que podia finalmente pôr as esporas e fazer voar o burro em corrida desenfreada. Ia eufórico, porque estava a viver a aventura que imaginara nos sonhos da noite anterior. Até que despertei do sonho que estava a viver. Tinha chovido e no percurso, junto à traseira da casa do José Gaspar havia um grande lamaçal com água que assustou o burro e o fez parar repentinamente fazendo uma enorme derrapagem seguida de queda e me projectou por cima da sua cabeça para um grande banho de lama. Encharcados, eu e o burro, que consegui voltar a montar quando este ainda se tentava levantar, prossegui a viagem com novos encitamentos e esporadas que provocaram no burro tal descontrolo que resolveu sair do caminho e meter-se na vinha do Joaquim da Serrada como louco desvairado. Não fora os homens que andavam a trabalhar na vinha conseguirem refrear a besta e acalmá-la e não sei onde teria ido parar. Finalmente resolvi então seguir em marcha moderada e lá cheguei ao ferrador, que se surpreeendeu ao ver o burro todo suado e sujo de lama.
Recordo com saudade a sua figura simpática que deixou o vazio dos que, por serem marcantes, são insubstituíveis.
Ccarifas
Digo a toda a gente que conheço, quando se proporciona, que a minha terra é linda, com a vaidade própria de quem lá nasceu e lá mantém as raízes familiares e afectos, que revivo agora assíduamente.
A idade tudo leva e tudo traz, diz-se, com a evolução das mentes na aprendizagem do que a vida e a idade nos ensina.
Somos moldados para a vida nas múltiplas facetas que adoptamos com as experiências e aprendizagens que absorvemos nos primeiros anos de vida.
Vivi até aos doze anos no mundo fechado da minha aldeia absorvendo os hábitos instalados dos que me rodeavam. Parti então para Lisboa onde me fixei até hoje com a inocência dos da minha condição.
Quando revisitava a minha terra uma vez por ano ficava sempre deslumbrado a rever as mesmas coisas de sempre, no seu estado primitivo e estacionário. Grupos de homens com a enxada às costas, grandes extensões de plantações de batata, milho e feijão semeados, carros arrastados por burros, mulas ou bois, regas das hortas com águas retiradas aos poços com as gaivotas à força de braços, rebanhos a pastar em baldios, uvas pisadas com os pés para obter o mosto, limpeza e poda de àrvores com serrotes, descamisadas e debulhadas do milho nos serões de verão, ceifar e malhar o trigo na eira, idas à serra para apanhar gravetos, candeios, pinhas e agulho para acender as lareiras, roçar mato para as estrumeiras e para os currais, matar o porco para a salgadeira, amassar e cozer o pão para toda a semana em fornos a lenha, (que saudades da brindeira de milho cozida sobre uma folha de couve, com uma petinga azeite e cebola no seu miolo), etc. Pariam-se muitos filhos para garantir apoio para sobrevivência na velhice. Criavam-se porcos, cabras, ovelhas, coelhos e galinhas. Não havia reformas nem subsídios, não havia rádio, nem televisão, nem jornais. O dia terminava ao sol posto. Éramos auto-suficientes.
Hoje, no século seguinte, sento-me na soleira da porta da minha casa e sinto-me nostálgico ao estabelecer as diferenças que observo: Não vejo passar um único homem com enxada ou outra ferramenta para trabalhos no campo, poucos são os campos cultivados, passam carros de marca, BMW , Mercedes e outros a alta velocidade, tractores com reboque que transportam as famílias, máquinas que pulverizam tudo, que arrancam àrvores e as cortam em madeira normalizada, máquinas que esmagam as uvas, máquinas que debulham o milho e o trigo, quando há, padeiros que nos vêm vender pão, que já não precisamos cozer, peixeiros que nos vêm vender peixe, que já não precisamos pescar, carteiros que nos trazem o correio que já não é preciso ir levantar à loja. Não nos deixam criar o porco e matá-lo para conservar na salgadeira, para todo o ano. Já não se pode dizer a ninguém: bom dia!, boa tarde!, boa noite!, porque não passa ninguém, calmamente, a pé.
Esta já não é a minha terra de então. Já não temos salgadeiras, agora substituídas pelas arcas frigoríficas, já não bebemos água da fonte ou do poço, porque nos canalizaram a água para casa, já não temos lanternas e candeeiros a petróleo ou azeite porque nos ligaram à rede de electricidade, já não precisamos de acender lareiras porque existe aquecimento a gáz, electricidade ou gasóleo, já não nos apetece sair para conhecer mundo porque temos a televisão que nos mostra tudo, já não precisamos ir visitar ninguém para saber se estão bem porque temos telemóvel para lhes falar sem sair de casa, já não é preciso trabalhar porque os governos de agora ou nos dão a reforma ou subsídios de desemprego ou subsídios de reinserção social. Já não temos pobres para ajudar, porque a assistência social lhes tráz comida a casa, ajuda-os a fazer a sua higiene e da própria casa.
Agora perguntam-me: A vida era mais interessante antigamente ou actualmente. Por favor!!, vocês sabem a resposta.
Ccarifas
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